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O caminho que atravessa
Pode haver um impedimento no centro da sua jornada, um monólito silencioso e imóvel que surge sem aviso para interromper o fluxo do percurso. Drummond escreveu o poema mais conhecido da língua sobre uma pedra assim, e vale dizer o que ele faz com ela: nada. A pedra não é vencida, não é removida e não ensina. Ela fica, e o que resta é nunca esquecer que ela estava ali. Essa recusa é o próprio escândalo do poema. Diante da minha, escolho outra coisa. Se eu estagnar, ela permanecerá indiferente e inalterada. Se decidir encará-la como ferramenta de amadurecimento, o impedimento vira matéria-prima do caminho. O único modo legítimo de…
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Destituir a carência do trono
Sentir pena de si mesmo é possivelmente o vício emocional mais letal que a alma pode cultivar. Ele nos aprisiona numa espiral onde, em vez de reconhecermos a solidez do que já construímos, ficamos hipnotizados pela miragem daquilo que julgamos faltar. Schopenhauer capturou isso nos seus aforismos: raramente pensamos sobre o que temos, mas sempre sobre o que nos falta. Essa tendência a focar na carência rouba o fôlego para habitar o presente e inviabiliza qualquer apreciação das vitórias cotidianas. A autopiedade canaliza os nossos holofotes mentais para as deficiências, tornando-nos cegos para as próprias forças. E paralisa: enquanto a mente se ocupa em lamentar a sorte, negligenciamos o imperativo…
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O atrito da vida real
A missão é o alarme que desperta cada dom oculto, e ele aguarda apenas o atrito da vida real para brilhar. O sentido da vida não é um troféu estático no fim da linha. É a coragem de aceitar a própria vocação e permitir que ela nos obrigue a existir.
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Desviar-se do alvo
Uma vida espiritual robusta revela-se não na biologia do sobreviver, mas na profundidade do sentir. Assim como a carne exige o pão cotidiano para não definhar, a alma agoniza por um sustento que transcende a matéria. A advertência de que nem só de pão viverá o homem, em Deuteronômio 8 e retomada por Cristo, não é metáfora poética: é diagnóstico. A Palavra não atua como adorno, e sim como o oxigênio do ser interior. Existe uma alquimia silenciosa entre aquilo que absorvemos e o que passamos a abrigar. Se os olhos são as clássicas janelas da alma, os ouvidos funcionam como os portões do espírito. É por essas frestas que…
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Alvenaria existencial
Não nascemos prontos. Somos projetos em rascunho, esboços de vastas possibilidades, e é precisamente nessa incompletude que reside a nossa maior grandeza: a abertura para o novo e para a construção intencional do próprio destino. A felicidade não é um bilhete premiado caído dos céus. É alvenaria existencial: ergue-se nas atitudes que tomamos, na liberdade de dominar o nosso próprio tempo, no cultivo de uma vida grata. E ela só atinge o seu ápice quando a nossa presença torna o fardo do outro mais leve.
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Mortimer Adler
Mortimer J. Adler foi filósofo, educador e coeditor, com Robert Hutchins, do projeto Grandes Livros do Mundo Ocidental, além de criador do Syntopicon. Compreendia a educação como a própria respiração da vida humana, e não como um confinamento de sala de aula. Sua obra ergue-se como um manifesto contra a superficialidade, pautada pela convicção de que qualquer pessoa tem o direito, e o dever, de acessar as obras que forjaram o pensamento ocidental. Ler os clássicos, para ele, era a aquisição das chaves necessárias para destrancar uma existência plena e consciente. Adler recusava a premissa de que a sabedoria profunda deveria ser monopólio de especialistas. Seus textos são provocações para…
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Lá fora, primavera
Quando o sol entra pela janela do meu quarto, um novo dia floresce em seus raios dourados, e sinto o coração despertar em sintonia com a vida que renasce. A alegria, leve e fresca, é como uma festa que dança no ar e enche meu jardim de promessas. Lá fora, é primavera; dentro de mim, um verão vibrante. Estou aquecido pelo amor, pleno de felicidade. Tudo resplandece em uma beleza intensa, como se visse o mundo pela primeira vez. A primavera vem, e com ela vejo apenas flores, apenas rosas em meu caminho. Sou amado, e essa certeza é o solo fértil da minha existência.
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Sem forma e vazia
Meu mundo é o caos, uma vastidão de desordem onde tudo se perde e se dissolve. Não consigo distinguir objetos, não há linhas ou horizonte, apenas um vazio nebuloso onde o sentido se esvai. A cada olhar, vejo apenas a desordem, e me torno estrangeiro em mim mesmo. O caos é, em sua essência, a ausência de sentido. Nele deixo de imaginar, e sem imaginação perco minha arte. Esse vazio incita uma busca por algo que o preencha. Mas como preencher o que já não reconhece forma? Como saciar um espaço onde tudo é sem contorno, sem delimitação? Ao tentar entender a natureza do vazio, sinto que perco a própria…
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Escrita sem borracha
“Corre…” Foi a única coisa que ouvi do passado. Sem hesitar, obedeci. Corri como se houvesse um destino a alcançar, como se pudesse deixar para trás o que me trouxe até aqui. Corri, tentando superar o próprio tempo, mas o tempo, incansável, continuou. Em meio ao esforço, eu cansei; o tempo, imune ao cansaço, prosseguiu. Segui mais devagar, sem o fôlego que eu tinha no começo, mas com uma sensação de que algo, ou talvez eu mesmo, ficava para trás. Cheguei a um lugar que agora já me é desconhecido. Estou entre o “ir” e o “chegar”, preso a essa linha tênue onde tudo parece avançar e ao mesmo tempo…
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O que não exige raízes
A vida, em sua essência, é um chamado à frutificação. Quando cuidamos dela com zelo, os frutos que colhemos carregam significado. Cada ato de cuidado se transforma em um gesto de criação, como quem desenha no tempo uma obra. Nos dias de hoje, a experiência de vida é confundida com experiências que apenas desgastam. Caminhos que prometem intensidade e atraem com promessas de liberdade acabam por ser laços que nos prendem à superficialidade. O que nos atrai para esse vazio? Talvez uma força que nos prende ao visível, como se o imediato fosse o limite da existência. A frutificação da vida exige um cuidado atencioso, uma disposição interior para o…





























