Querer e rejeitar as mesmas coisas
“Querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas: nisso, enfim, está a amizade firme.” A frase é de Salústio, na Conjuração de Catilina.
Ela passa longe de um mero alinhamento de preferências ou de afinidades de salão. Trata-se da união de duas vontades que, ao colidirem no tempo, criam um espaço onde cada desejo e cada aversão ecoam de forma harmônica. É onde duas identidades se reconhecem e, ao partilharem uma fome comum pelo bem e pela verdade, tornam-se cúmplices.
Querer as mesmas coisas é enxergar no outro o espelho da própria sede por aquilo que é imutável. É como se as almas de dois amigos, ao se alinharem, decifrassem uma paisagem que antes não passava de um sussurro ininteligível na solidão da própria consciência. Na amizade autêntica, esse sussurro encorpa e vira canto. O que é amado pelo outro passa a ser amado também, sem a necessidade do ruído das explicações.
Rejeitar as mesmas coisas é selar um pacto contra tudo aquilo que corrompe. A lealdade se revela nos instantes em que ambos dizem um não categórico ao que ofende a dignidade que compartilham. Nesse não intransigente esconde-se o sim mais radical àquilo que permanece de pé quando todo o resto desmorona.
Por isso a amizade verdadeira não é uma fusão que aniquila o eu. É uma dança onde cada um sustenta o próprio ritmo enquanto reverencia a melodia do outro. É a criação de uma terceira realidade, tecida por cada palavra e cada silêncio.
No fim de tudo, a nossa maior urgência é encontrar alguém que suporte partilhar do mesmo céu e do mesmo chão.


