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Um choque de proporção
A vida é uma fresta rara de tempo, uma improbabilidade que nos é concedida no instante em que abrimos os olhos para o mundo. Como suportar o peso dela? A resposta, talvez, resida na recusa em apenas existir. A nossa biografia não pode ser reduzida a uma sucessão de dias tolerados. Cada colisão com a realidade, seja a perda ou a vitória, é ferramenta de autoconhecimento. Navegar a finitude exige a audácia de encarar o desconhecido e a humildade de capitular diante daquilo que foge ao nosso controle. Para suportar essa marcha, todos nós abrigamos um santuário interno, uma trincheira invisível onde encontramos a lucidez que o caos exterior tenta…
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Sem segunda via
Eu sou o contraste, a ruptura do silêncio, o eco que ressoa no vazio. O ego que desmorona e se reconstrói em fragmentos. Sou o pensamento ainda sem forma, uma energia que pulsa entre o tangível e o desconhecido. Tornei-me o farol neblinado: uma luz que se propõe a guiar, mas que recusa revelar plenamente o caminho, preferindo perder-se na névoa que oscila entre a claridade e o mistério. Carrego em mim o peso do que deveria ter sido. Sou um passado que teima em se projetar no futuro, o eco de um tempo esquecido que reverbera em cada decisão inacabada. Escondo-me como um tesouro soterrado entre as camadas de…
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Uma vírgula de Deus
Planejo. Estudo. Grito. Vou. Cada ação é um passo calculado, um avanço cego em direção ao que eu imagino ser a linha de chegada. Mas não alcanço o porto que desejo. O meu olhar perde-se na neblina entre os sonhos concretos e as miragens. Cada movimento que executo é um eco da minha ambição, uma busca que pulsa nas veias e insiste em dissolver-se ao menor toque. Sonho. Olho. Fito. Avanço. Em cada nova tentativa acende-se uma faísca de esperança, uma explosão breve de fé na quebra do impossível. Mas a realidade impõe-se como um muro de concreto. Não realizo. Persisto. Insisto. Não desisto. Lanço-me com fervor ao campo dos…
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Rascunhos de nós mesmos
Desbravar a existência é um ofício reservado aos corajosos, àqueles que se dispõem a tatear as margens do desconhecido com o peito desarmado. Viver não pode ser reduzido a um reflexo mecânico de passos automáticos e agendas cumpridas. É uma travessia irretornável. E, no meio dessa travessia, esbarramos naquilo que somos, ou naquilo que nos convencemos ser. Fugimos da realidade construindo um exílio autoimposto, uma fuga anestésica que nos treina para ter pavor da verdade. Nós a procuramos, sim, mas trememos diante do que ela pode desenterrar. Caminhando como rascunhos de nós mesmos, carregamos a dúvida em estado latente: o que, afinal, estamos sendo? Será que esse eu que apresentamos…
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O que a fala teme
O olhar alcança o longe e perscruta o horizonte. Nesse ato de observar há algo que ultrapassa o desejo de ver: é um convite a desbravar a essência. A vida, com os seus limites, muitas vezes parece espremida na frieza de uma tela, restrita a rotinas e ao território comprimido das horas úteis. Diante desse achatamento, cada caractere que nasce na folha em branco é uma ruptura. Escrever é um ato de suprema coragem que revela o que a fala teme e o que o coração insiste em trancar. Cada frase converte-se em uma janela, uma fenda para o mistério. Quando escrevo, o pensamento encontra asilo. Refugia-se na exatidão da…
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Encolher-se para caber
“Comece a ser agora o que você será daqui em diante.” A frase, atribuída a São Jerônimo, atravessa os séculos como um ultimato. Ela convoca a inaugurar, sem a covardia dos adiamentos, a própria transformação. Não existe atalho para o amadurecimento que não exija abraçar o instante presente, cientes de que a colheita de amanhã é refém da semente de hoje. O amadurecimento é a pedagogia do risco, e exige doses iguais de humildade e ousadia. Abraham Maslow formulou a encruzilhada com precisão: pode-se escolher voltar para a segurança ou avançar para o crescimento, e o crescimento precisa ser escolhido repetidas vezes, assim como o medo precisa ser vencido repetidas…
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Estou vivendo um inferno
Já tentou dimensionar o céu? É um exercício que esmaga qualquer vocabulário. Como poderia o olho humano, viciado na cronologia e na dúvida, vislumbrar uma beleza que não cabe na nossa geometria? O céu não é um latifúndio de nuvens nem um auditório grandioso: é o estado em que a presença de Deus reina sem a interferência das sombras. É a dimensão onde o amor deixa de ser apenas um sentimento e se torna a própria matéria-prima da realidade. Em contrapartida, é curioso, e até trágico, ouvir alguém esbravejar diante de uma crise: “estou vivendo um inferno”. Como se a perdição pudesse ser reduzida a um contratempo. O inferno verdadeiro…
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O somatório das nossas renúncias
A vida apresenta-se como um vasto corredor de oportunidades, onde cada porta entreaberta nos convida à travessia. Contudo, a matemática da existência é implacável: para cada porta que decidimos cruzar, dezenas de outras ficam trancadas para trás. Escolher, portanto, transcende a decisão entre alternativas. É a arte de renunciar. No núcleo de qualquer decisão madura repousa o saber. O conhecimento precisa anteceder a posse: é ele que nos autoriza a extrair propósito daquilo que temos. Possuir um violão sem dominar os seus acordes é abrigar uma beleza muda, uma arte paralisada em um pedaço de madeira. Da mesma forma, antes de girar a chave de um veículo, é imperativo saber…
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Sinusite
Escrito em 2012, sobre 1990 ou 1991. Eu devia ter cinco ou seis anos. A minha primeira epifania de autoconsciência materializou-se numa tarde de infância, enquanto eu brincava sobre o muro dos fundos de casa, no bairro Grande Vitória. Estava ali, agachado, imerso na simplicidade ingênua dos jogos solitários, quando um desconforto súbito tomou de assalto a minha fronte. Entre os olhos, uma dor pulsante começou a ditar o seu ritmo, uma pressão densa que o meu vocabulário de menino ainda não sabia nomear. Mais tarde, a medicina chamaria aquilo de sinusite. Naquele instante, a única certeza era a presença irrefutável do incômodo, despontando em exata sincronia com o fim…
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Estrangeiros na própria pele
Muitos atravessam a vida sem jamais se darem conta do que guardam em si. Habitam a existência como meros visitantes, estrangeiros na própria pele, sem nunca explorar os quartos e corredores que abrigam a parte mais funda do ser. O preço dessa ignorância é uma fragilidade perigosa: quem desconhece o próprio território torna-se refém de qualquer julgamento alheio e permite que a voz do mundo dite as fronteiras da sua identidade. O que transbordamos é o reflexo direto do que cultivamos em silêncio.





























