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Dois personagens, um homem
Escrevi uma cena de teatro com dois personagens que se reencontram numa biblioteca, depois de muitos anos. Fiz o perfil dos dois, com idade, aparência, história, personalidade, hobbies, figurino e maquiagem. E só agora, relendo, percebo que dividi a mim mesmo em duas pessoas. Matheus tem trinta e quatro anos. É reservado e introspectivo, o que contrasta com a vivacidade da juventude dele. Foi o garoto de ouro da cidade: bom aluno, atleta, carismático. Depois de uma perda, passou anos tentando preencher o vazio com diversos hobbies e carreiras. Formou-se em engenharia, mas a paixão verdadeira sempre foi a carpintaria, aprendida com o avô. Usa no pulso um relógio de…
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Travei
Encontrei, revisando papéis antigos, o relatório de autoavaliação que entreguei em maio de 2022, no estágio supervisionado da licenciatura em Teatro. Num dos campos, o formulário perguntava quais estratégias eu havia usado para realizar as atividades. Respondi que li os textos propostos e assisti aos vídeos. E então escrevi, em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico: TRAVEI. Foi a única palavra do relatório inteiro que eu escrevi assim. Não escolhi o caixa alta por ênfase. Escolhi porque era a palavra exata e porque nenhuma outra servia. Eu havia feito tudo o que antecede a tarefa. Tinha o material, tinha lido, tinha visto. E na hora de produzir, não…
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Por que Birdman
Numa disciplina que pedia um ensaio sobre teatro e cinema, eu podia escolher qualquer filme. Escolhi Birdman. O filme é de Alejandro González Iñárritu, de 2014, e conta a história de Riggan Thomson, vivido por Michael Keaton. Riggan foi um ator famoso por interpretar um super-herói décadas antes, e agora tenta provar que é artista de verdade montando uma peça na Broadway, adaptada de um conto de Raymond Carver. Ele quer ser levado a sério. Passa o filme inteiro sendo perseguido por uma voz interna, a do personagem que o tornou famoso, que repete que ele é irrelevante, que ninguém liga, que aquilo tudo é patético. E, na cena mais…
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Sentido único
Escolhi, numa atividade de disciplina, refletir sobre a palavra sentido. Escolhi porque ela me remetia ao verbo sentir. Escrevi que, quando uma coisa faz sentido, é porque ela consegue mexer com a gente, e que esse mexer não é biológico nem físico: é um sacudir das estruturas internas. Algo faz sentido quando nos move. Move a estrutura. Abala. E depois passei o resto do texto descrevendo, sem perceber, o terceiro significado da palavra. Porque sentido, em português, quer dizer três coisas. Quer dizer significado, como em fazer sentido. Quer dizer sensação, como nos cinco sentidos. E quer dizer direção, como em sentido único, mão e contramão, sentido horário, siga em…
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Sístole e diástole
Eu habito simultaneamente o agora e o além, navegando em um fluxo que desconsidera as fronteiras entre o presente e o eterno. Sou um movimento de sístole e diástole, uma passagem constante entre o que fui e o que ainda está por vir. Preso ao momento e impulsionado pela vastidão, carrego essa alternância onde cada passo revela não apenas o que sou, mas a integridade do que estou me tornando. Nesta travessia, procuro anular o peso da hostilidade alheia e dissolver as barreiras que tentam me acorrentar ao desassossego. Escolho repousar na frequência da minha própria voz. Ela deixou de ser apenas som para se tornar o meu refúgio, o…
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Um tratado de paz
O ser humano abriga um núcleo profundo que transcende as fronteiras do consciente e do inconsciente, uma essência que opera simultaneamente como mistério e bússola. Esse núcleo é a nascente da nossa autenticidade. Contudo, para a imensa maioria, é o ego, com a sua necessidade crônica de controle, que assume o volante na relação com o mundo. O ego não apaziguado deseja impor-se a qualquer custo: mendiga reconhecimento, aprovação e poder, e perde-se na tentativa desesperada de provar a própria relevância. Amadurecer exige, de fato, a construção de um ego forte. A diferença é que esse ego deve operar como sentinela aliado da essência, e não como o seu ditador.…
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Mapear a criatura
Crer não carrega nenhum traço de infantilidade. Pelo contrário, a fé é um exercício de profundidade, uma aposta naquilo que não se vê, mas que se intui com a força de uma verdade transcendental. Esse movimento interno não se sustenta na ingenuidade, e sim na audácia de dar um salto no escuro, abraçando o que escapa à métrica racional. Crer exige o abandono do porto seguro das certezas para navegar na vastidão do mistério. Não é refúgio para os fracos de espírito, mas a arena daqueles que aceitam a vida por inteiro, caçando um sentido que sobreviva à corrosão do tempo. Contudo, para conhecer o Criador, é imperativo primeiro mapearmos…
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Apodrecer no galho
De onde deriva o amadurecer? A pergunta obriga a investigar as raízes invisíveis que sustentam o crescimento. A regra é implacável: só amadurece quem, de fato, cresce. E crescer transcende o acúmulo de aniversários ou de cicatrizes. É uma metamorfose interna que alinha o que somos hoje àquilo que nascemos para ser. A semelhança com a natureza é exata. Assim como um fruto atinge a plenitude ao absorver o calor do sol e a nutrição da terra, nós amadurecemos ao processar a essência da vida. Contudo, há uma linha tênue nesse processo: o limite exato entre a maturidade e a putrefação. Se o fruto não for colhido no tempo certo,…
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A umidade da tinta
Há uma ausência que me invade, uma distância silenciosa entre quem sou e quem espero encontrar. Onde estou? Procuro-me entre as palavras, nos fragmentos de cada frase, em cada letra que deixo gravada no papel. Sou a presença que se oculta nas entrelinhas, no vão entre um vocábulo e outro, na umidade da tinta que ainda não secou. O meu autoencontro acontece na exata interseção entre o papel e a caneta, nesse toque simultaneamente sensível e firme, onde cada movimento de caligrafia é um traço incontestável de mim. Encontro-me e perco-me no bloco de notas, no rascunho caótico da vida e nos esboços trêmulos que acabam se tornando definitivos. Investigo…
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Na ausência de testemunhas
Eu dou a luz, pois sou a própria luz que ilumina o desconhecido, a faísca que ousa onde muitos se recolhem. Carrego em mim uma ciência que escapa aos dogmas, uma verdade que sobrevive para além da racionalidade engessada e das fórmulas que se pretendem inquestionáveis. Encarno o fenômeno inominado, o lampejo que habita a lacuna entre as palavras. Manifesto-me como o alívio silencioso para o espírito aprisionado, o amortecimento das dores invisíveis, o consolo que inunda os que habitam o cárcere do próprio ser. Enxergo através das frestas do possível. Dispenso a inutilidade que o mundo consome com tanta reverência. Rejeito a felicidade estagnada, restrita ao raso e ao…


























