A igreja entre as palmeiras
Quando morávamos em Pedra dos Búzios, meu pai teve um sonho que lhe roubou o sossego. Ele caminhava por uma estrada ladeada por palmeiras imponentes. A imagem era nítida, o significado mudo. Guardou o mistério no peito.
A tradução veio meses depois, a caminho de um sítio para buscar mangas com um colega. Ao dobrar uma curva na estrada, o cenário do sonho saltou para a realidade: as palmeiras estavam lá, enfileiradas. Ele entendeu que estava pisando em solo sagrado.
Ao chegar ao sítio, a carência espiritual do lugar era palpável. Longe de tudo, os moradores não tinham onde congregar. O dono da terra, percebendo a sensibilidade do meu pai, doou um pedaço de chão para que ali fosse erguido um ponto de luz.
O que se seguiu foi uma sucessão daqueles milagres orgânicos que a burocracia não explica. No depósito de materiais, ao pedirem apenas um orçamento, o proprietário, senhor Nelson, emocionou-se. Havia recebido um aviso divino de que alguém bateria à sua porta com aquele exato propósito. Os materiais foram doados ali mesmo. Na vizinhança, o pedreiro Titico ofereceu suas mãos calejadas. Em todas as folgas do meu pai na prefeitura, os dois partiam às cinco da manhã e voltavam ao entardecer. Cada tijolo assentado em Nova Campo Grande era cimentado com fé pura e suor honesto.
Com o templo pronto, meu pai procurou a CADEESO em busca de cobertura espiritual e logística. O presidente da convenção informou, com a frieza de um latifundiário, que aquele “campo” pertencia a um pastor amigo dele e que a concorrência não seria autorizada. O dono da jurisdição sequer teve a decência de receber meu pai.
Diante da recusa, meu pai devolveu a propriedade ao doador original e tirou do próprio bolso o dinheiro para quitar os materiais que o senhor Nelson havia doado.
A igreja entre as palmeiras nunca foi inaugurada.


