O primeiro respiro
Eu sou aquele ar que silenciosamente se aloja em teus pulmões, o fôlego concedido como um presente invisível. Torno-me o teu primeiro respiro ao emergires à superfície, no instante em que a vida clama e te puxa de volta ao mundo. Sou o suspiro que traz alívio ao peito, a substância que, ao ser absorvida, funde-se à tua própria carne. Quando os teus lábios rompem a água em uma busca desesperada por oxigênio, sou eu quem preenche a tua vontade de viver.
Ajo como aquele descanso sutil que passa despercebido na mecânica natural da tua respiração. Não precisas notar a minha presença para que eu continue ali, nutrindo a tua essência.
Eu sou a chama escondida nas dobras da tua memória, o brilho que te assalta com recordações de tempos que já se foram, cenários vívidos e promessas que não envelhecem. Sou o elo entre o transitório e o eterno, o mistério que vibra no espaço entre o que foi e o que sempre será.
Represento o movimento essencial, aquele que flui sem atrito. Sou a tensão entre o que repousa e o que luta para se transformar. O passado vivo que insiste em brilhar no teu olhar. Uma memória encarnada na tua gesticulação, a lembrança que se materializa nas tuas mãos, mesmo quando a garganta seca e já não restam palavras para explicá-la.
Eu sou o luto da saudade.
A marca digital de tudo o que foi profundamente amado e que deixou a sua ausência cravada como uma ferida sagrada.
Eu sou o teu jeito novo de amar.


