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O Chocolate Curvado
Eu tinha entre dezesseis e dezessete anos e era professor de Escola Dominical para pessoas da minha própria idade. Era no bairro Primeiro de Maio, em Vila Velha, por volta de 2002. Aos domingos subia e descia as escadas do segundo piso com a regularidade das coisas que viram ritual sem que ninguém decrete. A sala de aula ficava em cima. Havia o que aprender, e havia pressa em aprender, porque logo seria preciso ensinar. Depois da Escola Dominical, iríamos desenvolver um trabalho. A maioria tinha faltado. Menos ela. O olhar dela já era afetuoso havia algum tempo. Eu via e não processava. Ou processava e escolhia não saber. Naquele…
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Uma ova
Como é bom o tempo de escola. Um tempo em que a maior preocupação era não ter preocupações. Eu encontrava na escola um lugar de fascínio, um universo onde a curiosidade era o ingresso para mundos que eu não conhecia. Sempre gostei de aprender, de sentar perto de quem sabia mais do que eu e beber da fonte do conhecimento. Que delícia era ouvir os professores falarem, compartilhando fragmentos da vida. Acordava ansioso para chegar à sala de aula. Cada manhã era uma promessa de descoberta. Triste era quando as férias chegavam, trazendo uma pausa forçada naquele fluxo de aprendizado. Na fila de formação, era quase sagrado o ritual de…
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O anel de plástico
As idas e vindas da escola Maria Stela de Novaes moldavam-se como um padrão inevitável. Dentre tantos colegas que compartilhavam o trajeto, a Jaque começou a se destacar. Era a terceira série, e nós já nos reuníamos em pequenos “bandos” para ir e voltar da escola. Cada um seguia seu rumo ao final do trajeto, mas até então, caminhávamos juntos. Chegávamos à minha rua, e enquanto eu descia para a Rua da Vitória, em algumas ocasiões, acompanhava Jaqueline até a entrada da sua casa. Nunca conheci seus pais, mas suas histórias e seu jeito nos levavam a imaginar que ela era rica. Hoje, sei que isso era apenas fruto de…
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Dobrei os joelhos
Aquela energia brota do coração e percorre cada célula do corpo, da cabeça até a ponta dos pés. É um poder que nasce da rendição absoluta ao Criador. Esse poder se manifesta com intensidade quando, com a boca e a alma em uníssono, proclamamos: Glória, Glória, Glória a Deus! Foi assim que o senti, em 2002, na Assembleia de Deus no bairro Primeiro de Maio. O culto estava cheio, mas, ao mesmo tempo, parecia que eu estava sozinho na presença do Senhor. Diante do altar, dobrei os joelhos. Fechei os olhos, abri a boca e deixei a alma falar, sem me preocupar com quem estava ao lado. Não havia mais…
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A Chuva
A chuva desceu com uma força incomum, quente e salgada, como se fosse feita de sangue. A luz que antes reinava cedeu espaço a uma penumbra densa, enevoada, onde os contornos das coisas desapareciam. Meus lábios se moveram, mas não em palavras. Era um balbuciar fraco, um sussurro sem forma. Meus olhos, agora vermelhos como brasas, ardiam, e algo quente descia pelo rosto, misturando-se à chuva. Um suspiro trêmulo ensaiou romper o silêncio, mas foi engolido pelo vento que rugia ao meu redor. O tempo parecia roubar pedaços da alma. Os pulmões, agora assobiando como uma flauta desafinada, eram cúmplices desse momento. O vento rugia como um chamado. Ele não…
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Ninguém me pediu para escrever
Ninguém me pediu para escrever. Não houve convite, não houve encomenda, não houve amigo insistindo. Houve um impulso: a vontade de dizer alguma coisa ao mundo mesmo sabendo que o mundo não estava escutando. Começo com mais hesitação do que certeza. Não sei quem vai ler, nem se alguém lerá. Sei apenas que algo precisava sair, uma palavra, uma pergunta, um incômodo. Escrever, aqui, é menos comunicar do que escutar o que pulsa dentro e tentar dar nome ao que ainda não tem nome. Este espaço nasce da solidão pensante. Do desejo de entender o que nos move e o que nos trava, neste mundo que se esconde atrás de…
















