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A umidade da tinta
Há uma ausência que me invade, uma distância silenciosa entre quem sou e quem espero encontrar. Onde estou? Procuro-me entre as palavras, nos fragmentos de cada frase, em cada letra que deixo gravada no papel. Sou a presença que se oculta nas entrelinhas, no vão entre um vocábulo e outro, na umidade da tinta que ainda não secou. O meu autoencontro acontece na exata interseção entre o papel e a caneta, nesse toque simultaneamente sensível e firme, onde cada movimento de caligrafia é um traço incontestável de mim. Encontro-me e perco-me no bloco de notas, no rascunho caótico da vida e nos esboços trêmulos que acabam se tornando definitivos. Investigo…
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O útero do silêncio
A articulação da voz é um rito, uma arte capaz de costurar abismos. Cada sílaba que soltamos no ar funciona como extensão física de quem somos, uma radiografia do que carregamos no peito. Quando verbalizamos um pensamento, damos contorno àquilo que até então era apenas um fantasma na mente. O verbo é, na raiz, um gesto de gênese: a capacidade de moldar o invisível e erguer realidades que jamais existiriam sem o sopro da nossa voz. Contudo, romper o silêncio cobra um preço. É uma responsabilidade que exige compreender a balística de cada som que emitimos, porque o impacto não reside apenas no conteúdo, mas na forma. As nossas sentenças…
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O que a fala teme
O olhar alcança o longe e perscruta o horizonte. Nesse ato de observar há algo que ultrapassa o desejo de ver: é um convite a desbravar a essência. A vida, com os seus limites, muitas vezes parece espremida na frieza de uma tela, restrita a rotinas e ao território comprimido das horas úteis. Diante desse achatamento, cada caractere que nasce na folha em branco é uma ruptura. Escrever é um ato de suprema coragem que revela o que a fala teme e o que o coração insiste em trancar. Cada frase converte-se em uma janela, uma fenda para o mistério. Quando escrevo, o pensamento encontra asilo. Refugia-se na exatidão da…
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Invisibilidade tática
Há uma sacralidade nos sonhos. Eles repousam no silêncio, resguardados por um véu frágil e intocável. Habitam um território onde o atrito da realidade ainda não os corrompeu, como sementes suspensas, aguardando o instante exato para fincar raízes no solo do possível. Narrá-los antes da hora é profanar o mistério. Expô-los à luz precoce das opiniões alheias drena o encantamento e a força motriz. O sonho revelado é imediatamente expropriado: perde o poder de ser propriedade exclusiva de quem sonha e desintegra-se em uma versão pública e menor de si mesmo. No fundo, o sonho é uma verdade embrionária, uma potencialidade que carrega a promessa de uma realidade que está…
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A única voz que resta
Ouvir a voz do silêncio é tocar o íntimo da solidão, um lugar onde, paradoxalmente, o vazio revela a sua própria profundidade. É caminhar entre rostos conhecidos e sentir a distância que transmuta cada olhar em algo intocável. É escutar, no centro de si, a ausência de respostas prontas e aceitar que o que se procura, talvez, não habite o mundo das formas. O silêncio não é um vácuo; é uma presença absoluta. É um deserto onde os afetos comuns não alcançam e as alegrias mundanas se mostram como miragens. Esse estado de ser nos reduz à nossa essência mais solitária e crua. Para ouvir o silêncio, é preciso esvaziar-se…
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Caixas de ressonância
Existe uma melodia própria para cada tempo, uma nota exata para cada instante. No coração, abrigamos fragmentos de memória que não se dissipam com a ventania dos anos, mas permanecem sólidos e vivos, ressoando no compasso do que vivemos. Cada canção que nos atravessa é uma tentativa da alma de tocar a essência do próprio sentimento. E quando finalmente nos expressamos, percebemos quem realmente fala. Não é a boca. A boca apenas empresta a sua estrutura física para que o coração transforme o que sentimos em palavras. A música tem o poder implacável de denunciar o que somos por dentro. Quando revelo o meu coração, são as melodias que habitam…
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Eu sou o que não disse
Eu sou o que não disse. O que não ousou. O que hesitou no instante exato em que o tempo exigia uma resposta. Sou a presença oculta no peito, o sopro incômodo do que poderia ter sido. O mistério que virou silêncio e, depois, lamento. Fui aquele que esperou tanto pelas condições perfeitas que se esqueceu de notar que o prazo da espera havia prescrito. Por medo, fechei os olhos. Por medo, não telefonei. E esse medo me imobilizou a ponto de me tornar apenas um coadjuvante na história que eu mesmo deveria protagonizar. Fui o que machucou sem saber, projetando esperanças no alto e tentando tocá-las com mãos ainda…
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A marcha lenta
Eu tinha entre dezessete e dezoito anos, no bairro Primeiro de Maio. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja. Saímos, e meu coração pesou. A história começara uns dois anos antes. Ela era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora. Naquele tempo não havia professor para a Escola Bíblica Dominical. Escolheram-me, não por vocação, mas por falta de opção. Eu, adolescente, dava aula a adolescentes. Por lealdade e pudor, redobrei o cuidado com as meninas da minha idade, distância…
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O corpo não saiu do lugar
Escrevi há pouco quatro parágrafos sobre a atração. Saíram fáceis. Falavam de uma presença que atravessa o tempo, de uma sedução que não é da aparência, de uma essência que dispensa explicação. Reli e percebi que em nenhum momento eu havia dito o que estava descrevendo. Tinha enobrecido antes de nomear. Nas mesmas semanas, reencontrei três textos antigos. Num deles eu tinha treze anos, e uma menina me pediu uma palavra gentil diante de um espelho. Respondi que era muito controlado, que nada me tirava do controle. Noutro, aos dezesseis, uma moça se inclinou sobre uma mesa a dois passos de mim e ficou ali. Pensei que ela me odiava.…
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Você não gosta?
Eu tinha uns treze anos. Em Gurigica, na antiga casa perto da rua, havia um quarto pequeno, com uma janela direta para a rua e uma porta voltada para a sala. Foi ali que minha bisavó passou os últimos dias. Depois virou quarto de visita. O guarda-roupa era de madeira maciça, desses que não se fazem mais, com um espelho grande no centro. Ela estava de frente para o espelho. Olhava-se com a atenção de quem faz uma pergunta ao próprio reflexo e espera uma resposta que o reflexo não pode dar. Eu olhava diretamente para ela, sem a intermediação do vidro. Ela via uma versão de si mesma. Eu…



























