Não por falta de entendimento
Kant define menoridade como a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem a direção de outro.
E acrescenta uma cláusula que muda tudo.
Ele diz que essa menoridade é culpada quando a causa não está na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem para usá-lo sem a direção alheia.
Não é burrice. É medo.
Por isso o lema que ele dá ao esclarecimento não é uma exortação a estudar. É uma exortação a ousar: tem coragem de te servires do teu próprio entendimento.
Li isso, resumi para uma disciplina e não parei um segundo na palavra culpada.
Deveria ter parado, porque essa é a acusação exata do meu arquivo.
Escrevi, em vinte anos de textos, dezenas de variações da mesma cena. O pensamento atravessava a sala e o corpo não saía do lugar. A frase estava pronta e o maxilar travava. A mão ia até o telefone e voltava.
E escrevi, com todas as letras, a formulação que coincide com a de Kant sem que eu soubesse: passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor.
Não por falta de entendimento. Por falta de coragem.
É a mesma frase.
E é aqui que eu preciso discordar dele, ou pelo menos complicar.
Porque eu escrevi um ensaio inteiro tentando distinguir o silêncio que é covardia do silêncio que é prudência. Propus três critérios: se há prazo, se o corpo concorda, e quem paga a conta do que não foi dito.
E terminei aquele texto admitindo que os três falham na hora. Que no momento exato em que a pergunta se apresenta, ninguém consegue aplicar critério nenhum, e que só depois se descobre qual dos dois silêncios era.
Kant escreve como quem nunca teve dúvida sobre isso.
Na descrição dele, o menor é acomodado: prefere não pensar porque é cômodo, porque outros se encarregam do negócio incômodo, porque pagar alguém para decidir sai mais barato que decidir.
Existe gente assim, e eu já fui essa gente em algumas questões.
Mas há outra coisa, que o ensaio não vê, e que talvez não fosse visível de onde ele escrevia.
Existe uma menoridade que não é comodidade. É pavor.
Um menino de treze anos diante de um espelho, que não consegue dizer a uma menina que ela está bonita, não está escolhendo o conforto. Ele está sendo esmagado por uma coisa que não tem nome ainda e que não obedece a decisão nenhuma.
Chamar aquilo de culpa é verdadeiro e é insuficiente.
E, no entanto, eu não descartaria a palavra dele.
Porque a alternativa, que é dizer que nunca houve escolha, também é falsa, e é justamente a que mantém a pessoa parada por mais quarenta anos.
O que sobra é uma formulação menos elegante que a de Kant e mais próxima do que eu vivi.
A coragem não estava disponível quando eu precisei dela.
E parte dela ficou disponível depois, porque eu fui atrás.


