A luta entre a voz e o corpo
Num trabalho de iluminação cênica, precisei projetar uma cena. Descrevi três momentos, cada um com um tipo de luz, e cada um com um estado do ator.
Reli três anos depois e descobri que tinha escrito a minha própria biografia sem perceber.
O primeiro momento. A cena se inicia com o ator de cabeça baixa, agachado, a se levantar lentamente, olhando fixamente para um ponto na plateia. Luz frontal, até que ele fique completamente ereto.
Cabeça baixa. Agachado.
Escrevi, sobre mim mesmo, num relato de sonho: entrei de cabeça baixa, os olhos rastreando o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos, porque era vício antigo caminhar encolhido, como se ocupar menos espaço no mundo garantisse o benefício da invisibilidade.
O segundo momento. A voz do ator se torna mais potente, demonstrando uma confiança vingativa. Luz lateral, para enfatizar a reação do corpo.
Confiança vingativa.
Também escrevi isso, em 2013, e não como cena. Escrevi que eu era a faísca que ousa onde os outros se recolhem, e terminei um texto sobre um desprezo recebido dizendo que a maior vingança contra quem duvida é ocupar o próprio lugar e seguir rumo ao topo.
O terceiro momento. O sentimento de declínio. Luz zenital, evidenciando o esforço do corpo para resistir ao que está sendo dito. E a frase exata que eu usei:
Nesta fase haverá uma luta entre o dito pela voz e o expresso pelo corpo.
Essa é a minha vida inteira em nove palavras.
No mesmo semestre, noutro documento, sobre outra performance, escrevi a mesma coisa em outras palavras: que o simbolismo estava na falta de conexão imediata entre o falado e o movimento, e que nem sempre a fala consegue, ou pretende, se mover na mesma velocidade ou direção da ação.
E fora da universidade, ao longo de vinte anos, escrevi isso dezenas de vezes sem chamar de cena. O pensamento atravessando a sala e o corpo parado. A frase pronta e o maxilar travado. A mão indo até o telefone e voltando. Décadas caladas não por falta de voz, mas por excesso de temor.
Três movimentos: encolher, erguer-se com raiva, e depois a briga entre o que a voz diz e o que o corpo faz.
Eu não escolhi isso conscientemente. Era um trabalho técnico sobre posição de refletores, e a cena existia para justificar as escolhas de luz.
Mas quando alguém precisa inventar um homem sozinho num palco, inventa o homem que conhece.
E há uma coisa que só agora eu vejo, e é a mais importante das três.
Na cena, o declínio vem depois. Primeiro ele se levanta, depois fala com força, e só então o corpo começa a contradizer a voz.
Na vida, comigo, foi na ordem inversa. A contradição entre voz e corpo veio primeiro, aos treze anos, diante de um espelho, quando eu não consegui dizer a uma menina que ela estava bonita.
Tudo o mais veio depois, e foi consequência.


