Artes & Narrativas

A Criatura Estava Viva no Veículo. O Que Fiz a Seguir Explica o Medo Humano

A rua parecia ser a mesma de sempre, mas havia um desalinho sutil na arquitetura da realidade. O carro estacionado em frente à casa não pertencia a ninguém, assim como a própria casa do vizinho era uma invenção daquela noite. Dentro do veículo, o absurdo repousava em silêncio: um animal de grande porte, um híbrido monstruoso de boi e cavalo. Era feito de carne e osso, mas carregava a frieza rígida das estátuas. Estava paralisado, mas, de uma forma que a razão se recusa a alcançar, pulsava de vida.

Eu o observava esmagado pelo peso de uma decisão inevitável. Havia em mim uma certeza muda e absoluta, quase um dogma cravado no peito: para que o bem prevalecesse, a criatura precisava arder. O motivo fundante dessa sentença me escapava, dissolvido na névoa daquele cenário, mas a necessidade era imperativa. O fardo precisava ser expurgado do mundo.

Aproximei-me e, subvertendo todas as leis da física, iniciei o fogo pelo avesso. O boi começou a queimar de dentro para fora. A princípio, o sacrifício parecia consumado. O corpo estático cedia à combustão invisível e parecia, finalmente, ter sucumbido. Mas a morte recusou-se a levá-lo por inteiro.

Da garganta para cima, a criatura despertou em um tormento contínuo. O pescoço retorcia-se contra a lataria; os olhos, esbugalhados e vivos, testemunhavam uma dor inesgotável. Era uma agonia confinada à expressão de quem não consegue gritar, uma alma presa na fronteira exata entre a vida e a ruína.

Fiquei ali, imóvel, tornado refém da minha própria obra. A convicção hipócrita de que eu fazia “o bem” foi rapidamente engolida por uma piedade sufocante. Eu desejava o fim. Desejava que a morte fosse rápida para estancar aquele sofrimento interminável. E, atrelado à culpa moral, nasceu o terror da vigilância.

O olhar mecânico das câmeras de segurança pesou sobre a minha nuca como um panóptico implacável. Havia uma matemática fria e egoísta no meu medo: se a criatura morresse e o silêncio reinasse, ninguém revisaria as gravações. A paz cobriria o meu ato. Mas, se ela continuasse a agonizar, o mundo inevitavelmente olharia. A investigação ocorreria, e a lente de vidro revelaria o meu rosto. O fogo, que havia sido planejado como uma purificação interna e contida, agora ameaçava as fronteiras do exterior. Fui tomado pelo pavor súbito de que as chamas invisíveis saltassem para os tecidos e roupas, espalhando um incêndio real que consumiria não apenas o carro, mas toda a estrutura ao meu redor.

Recuei para casa, numa tentativa vã de lavar a mente e as mãos daquilo que não podia ser visto. A tensão, contudo, fisgou-me e arrastou-me de volta para a calçada. Olhei de relance para o veículo. O animal continuava lá. Resistindo. Queimando.

Tentei me afastar da cena, buscando recompor a alvenaria da normalidade. Foi quando me deparei com o vizinho, o dono da criatura e do espaço que sequer existiam. Ele conversava com outro morador, rindo de banalidades cotidianas, completamente alheio à tragédia que ardia a poucos passos de distância. O outro vizinho, no entanto, pausou a risada. Lançou-me um olhar enviesado, como se os seus instintos farejassem a anomalia no ar ou lessem a culpa na rigidez da minha postura.

Sorri de canto. Desconversei com a habilidade gélida de quem aprendeu a gerenciar as tensões do convívio humano. Dei as costas e fui saindo, passo a passo, devagar e sem alarde, compondo o simulacro de uma noite pacífica. Tudo enquanto o fogo continuava a queimar. Em absoluto segredo. No carro, e dentro de mim.

Todos nós carregamos “incêndios invisíveis”. Quantas vezes você já precisou sustentar um sorriso, conversar sobre banalidades com um vizinho ou colega, e fingir que está tudo sob controle, enquanto uma tragédia silenciosa, uma dor ou uma culpa ardia intensamente do lado de dentro? O medo de que o mundo “veja as nossas câmeras de segurança” muitas vezes nos obriga a sofrer em absoluto segredo. Qual foi a máscara de normalidade mais pesada que você já precisou vestir em público?

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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