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A noite toda
Mestre Calú conta, numa entrevista, que não se brincava mamulengo por duas horas. Brincava-se a noite toda. Cinco horas ou mais. E ele sublinha, como quem constata uma perda, que meia hora é o que virou, e que meia hora foge da normalidade da brincadeira. Escrevi na minha resenha que isso é quase inconcebível para a nossa sociedade urbana. E é. Mas levei quatro anos para entender por que era possível antes. Não era resistência. Era estrutura. Ninguém aguenta cinco horas de espetáculo. Ninguém nunca aguentou. O que permite atravessar a noite inteira é não estar assistindo. Foi o que escrevi sem desenvolver: não se assiste ao teatro de mamulengo,…
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A cura pela fala
Estou estudando psicanálise, e a primeira coisa que o material diz é isto: Os seres humanos tendem a falar sobre seus problemas. É natural procurar alguém de confiança quando algo nos aflige. Às vezes pedimos conselho, mas muitas vezes queremos apenas nos sentir ouvidos e compreendidos. E a terapia acontece fazendo com que a pessoa fale. Parei nessa frase por um tempo. Porque a disciplina inteira, desde Freud, se apoia numa premissa que a minha vida passou quarenta anos contrariando: a de que as pessoas falam. Eu não falo. Não falei à menina de treze anos, diante do espelho, que ela estava bonita. Não falei às moças do culto, durante…
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Quinze a vinte minutos
A última frase do meu relatório de estágio dois é esta: Observei que a retenção de atuação das turmas é de quinze a vinte minutos por aula. Neste sentido trabalharei dentro desta perspectiva. Vinte e nove palavras, e elas registram a única coisa que eu de fato aprendi naquele ano. Meses antes, no primeiro estágio, eu havia escrito sobre a mesma turma que os alunos não conseguiam ficar sentados dez minutos e que aquilo era uma característica comportamental que deveria ser trabalhada. Trabalhada em quem, eu não disse. Mas a frase deixava claro: o problema estava neles, e a solução era corrigi-los. E aí, no relatório seguinte, sem nenhum anúncio,…
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O plano
Depois de meses observando aquela turma, eu tive que projetar um curso para ela. Cinquenta encontros, dois por semana, de junho a dezembro de 2022. Cem horas de teatro para o 7º Ano 1 da Escola Viva de São Pedro. Dezessete meninas e catorze meninos, entre onze e catorze anos, de famílias com renda per capita abaixo de meio salário mínimo. Reli o plano meses depois e descobri uma coisa que não percebi enquanto escrevia: cada peça dele responde a alguma coisa que eu tinha anotado nos diários. O objetivo geral do projeto é este, e está escrito assim: promover a participação de todo o grupo nos exercícios e apresentações,…
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Sem cláusulas de rescisão
Amar é, antes de tudo, um ato de criação. O matrimônio é o solo onde duas pessoas desbravam a plenitude de um mistério: unir, dentro da mais absoluta diversidade, aquilo que nasceu para ser uno. É ali que o sentimento deixa de ser espasmo de desejo e se consolida como promessa. Cada decisão é um tijolo assentado nessa arquitetura. A cultura insiste em enxergar a vida a dois exclusivamente como abrigo, refúgio acolhedor contra as intempéries. Ela o é, de fato, e é também uma forja, onde a vaidade e o orgulho são exorcizados pelo fogo do afeto real, e onde se aprende a disciplina de abdicar da própria vontade.…
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O útero do silêncio
A articulação da voz é um rito, uma arte capaz de costurar abismos. Cada sílaba que soltamos no ar funciona como extensão física de quem somos, uma radiografia do que carregamos no peito. Quando verbalizamos um pensamento, damos contorno àquilo que até então era apenas um fantasma na mente. O verbo é, na raiz, um gesto de gênese: a capacidade de moldar o invisível e erguer realidades que jamais existiriam sem o sopro da nossa voz. Contudo, romper o silêncio cobra um preço. É uma responsabilidade que exige compreender a balística de cada som que emitimos, porque o impacto não reside apenas no conteúdo, mas na forma. As nossas sentenças…
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Quinze decisões para o casamento
Circula há anos, em correntes de e-mail e em grupos de mensagem, uma lista de setenta e sete decisões para o casamento à luz da Bíblia. Recebi a minha cópia como quase todo mundo recebeu a sua, sem autor e sem origem. Ao conferir os versículos, encontrei referências trocadas e itens em que a orientação e o texto bíblico citado tratavam de coisas diferentes. Encontrei também cinco conselhos que eu não repetiria a nenhum casal que me procurasse. Um deles diz que por trás de um marido passivo há quase sempre uma esposa rixosa. Outro aconselha a esposa a ser um pouco cega para as faltas do marido. Um terceiro…
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Espinho camuflado de flor
Sempre que me aventurei a guiar os meus passos por bússolas alheias, desprovidas da luz do Alto, o peso da fatura foi esmagador. Existe uma verdade de sabor amargo que apenas os escombros do tempo ensinam: o sussurro do insensato costuma apresentar-se como um espinho habilmente camuflado de flor, um atalho sedutor que invariavelmente desemboca no precipício. Cada palavra proferida sem o lastro do amor pela Verdade tem o potencial de nos desfigurar, afastando-nos milimetricamente da identidade para a qual fomos desenhados. A anatomia da insensatez é previsível. Aqueles que operam sem freios morais, que agem por instinto e que idolatram apenas o que os olhos físicos capturam, marcham sob…
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Eu estou aqui
Há uma verdade que reverbera silenciosamente pelas frestas do mundo contemporâneo: em meio à multidão ruidosa, aos olhares desviados e às pressas inexplicáveis, existem aqueles que simplesmente esperam. São pessoas que, na quietude de suas próprias fraturas, aguardam por um encontro que as devolva ao contorno da própria humanidade. Há almas exaustas que não anseiam por conselhos ou respostas prontas, mas pela dignidade de um ouvinte atento. Há rostos marcados pela tristeza que não buscam explicações lógicas para a dor, mas um espaço seguro onde o silêncio seja permitido e o abraço sirva de abrigo. Ser o porto de quem se sente à deriva é oferecer o conforto de uma…
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Onde o tempo tem pouco alcance
A vida é um contínuo entrelaçar de luz e sombra. Buscamos ansiosos as alegrias, abraçando com fervor o que nos conforta, mas quando o amargor nos alcança tendemos a evitá-lo, temendo a desilusão e o peso das emoções que ele traz. Vivemos como se fôssemos permanentes em um mundo fugaz, esquecendo que somos, todos nós, provisórios. As experiências amargas deixam marcas indeléveis. Se tivéssemos a capacidade de olhar dentro da alma de alguém profundamente amargurado, perceberíamos uma coleção de feridas invisíveis, cada uma contando histórias de dor, de desapontamento, de esperanças esfaceladas. A maioria ainda não compreendeu que as verdadeiras marcas não estão à superfície, escondíveis sob tecidos, mas tatuadas…





























