Educação & Cuidado

Orvalhos de conteúdo

Escrevi, sobre o professor que eu observava, em meu estágio obrigatório do curso de Licenciatura em Teatro, que ele havia entrado no jogo da turma.

Que dançava conforme a música. Que não impunha, e que tentava conciliar alguns orvalhos de conteúdo com uma torrente de interações discentes.

Reli isso quatro anos depois e reconheço que aquela frase é a coisa mais precisa que eu escrevi em todo o estágio. Orvalho contra torrente. Ele tinha gotas para oferecer e a sala tinha enxurrada.

O ciclo era sempre o mesmo, e eu o anotei com a paciência de quem observa por semanas.

Ele entrava, ligava o computador, projetava slides para serem copiados. Nesse intervalo, os alunos começavam a interagir entre si e o volume subia. O professor chamava a atenção. Fazia-se silêncio. Passavam alguns minutos. Vinha uma nova onda de conversa, mais alta. Nova intervenção, agora com alguma ameaça de ocorrência.

E a aula acontecia assim, entre uma maré e outra.

Eu li aquilo como falha de manejo. Um professor que não impõe, que segue o fluxo emocional da turma, que transmite pouquíssimo conteúdo por via oral e se apoia no slide para copiar.

Hoje eu leio outra coisa.

Aquele homem estava executando a única estratégia que sobrava. Um professor sozinho, com uma turma que não consegue permanecer sentada dez minutos, num prédio que não foi feito para aquelas crianças, dentro de um modelo de tempo integral que exige presença o dia inteiro.

Ele não desistiu. Ele racionou.

Projetava o conteúdo para que ao menos ficasse registrado no caderno de quem quisesse copiar. Deixava a conversa correr até um limite tolerável. Interrompia quando passava do limite. E ia empurrando a aula até o fim do horário, entregando as gotas que conseguia entregar.

Isso não é bom, e eu não estou dizendo que é. É uma derrota administrada com competência.

O que me incomoda, hoje, é que naquele diário eu tenha descrito o comportamento e não a situação. Escrevi que ele dançava conforme a música, e não perguntei quem estava tocando.

Ninguém entra num prédio para ser regido pela própria turma. Isso acontece quando todas as outras opções foram retiradas, uma a uma, por decisões tomadas muito acima daquele corredor.

E o professor é a última pessoa da fila, e a única com rosto.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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