Uma sala sem ninguém dentro
Precisei projetar um cenário para uma peça, num trabalho de licenciatura em Teatro. Tinha liberdade total: podia inventar qualquer lugar.
Inventei uma biblioteca antiga, numa noite de chuva.
Descrevi tudo. Ao fundo, uma grande janela de vidro transparente, através da qual se vê o outro lado. Nas laterais, estantes de madeira repletas de livros antigos, subindo quase até o topo do palco, com luzes turvas. Ao centro, uma janela semiaberta, com árvores balançando ao vento e um raio de vez em quando. No meio, uma grande mesa de madeira coberta de livros abertos. À esquerda, um sofá. Sobre a mesa, um candelabro com vela, uma xícara e uma garrafa de tinta com pena.
A iluminação: âmbar suave vindo do topo, imitando velas. Azulado na janela, para simular o luar. Um foco mais forte sobre a mesa. E uma luz quente, quase dourada, sobre o sofá, para dar um tom caseiro àquele cantinho.
Escrevi que o objetivo era transportar o público o mais perto possível de uma biblioteca pessoal mágica.
E só reli isso três anos depois.
Não há ninguém ali.
Um cenário de teatro existe para que pessoas atuem dentro dele, e eu descrevi cada objeto daquela sala, a temperatura de cada foco de luz e a posição de cada estante, sem mencionar um único personagem, uma única cena, uma única fala.
Projetei um quarto para ficar sozinho.
E é o meu quarto.
Escrevi, num outro texto, sobre o lugar onde trabalho: sou sitiado por livros, as paredes deixaram de ser alvenaria e viraram estante, e da minha cadeira eu observo a chuva bater na janela enquanto a rua acontece lá embaixo.
Biblioteca. Chuva. Janela. Mesa. É a mesma sala.
Mas há uma coisa naquele croqui que não é o meu gabinete, e é a mais antiga de todas.
A primeira frase da descrição diz: ao fundo do palco há uma grande janela de vidro transparente que é possível ver do outro lado.
Vidro. Que se vê através.
Escrevi, noutro lugar, sobre um sonho em que eu descia uma escada preta, um degrau para cada ano da minha vida, e chegava ao porão procurando uma coisa específica: a primeira biblioteca que eu vi na vida, atrás da porta de vidro, na casa do meu tio José Luiz, em Paul, Vila Velha.
A primeira biblioteca da minha vida estava trancada atrás de um vidro, numa casa que não era a minha.
Trinta anos depois, com liberdade para inventar qualquer cenário do mundo, eu desenhei uma biblioteca e coloquei um vidro no fundo dela.
Dessa vez com todos os livros do lado de dentro, e eu dentro junto.
E ainda assim sozinho.


