Pólis & Gestão

Pesquisar onde se tem poder

No projeto de doutorado que escrevi sobre ética e formação cidadã, defini o campo assim: estudos de caso nas turmas dos cursos técnicos integrados ao ensino médio do Instituto Federal do Espírito Santo, com observação participante, entrevistas semiestruturadas com servidores e estudantes, e análise documental.

É o lugar onde eu trabalho.

E não trabalho lá de qualquer jeito. Coordeno a assistência estudantil do campus. É pelo meu setor que passam os auxílios, os encaminhamentos, os atendimentos e boa parte das decisões que afetam a permanência de um estudante na instituição.

Escrevi que entrevistaria estudantes.

Um estudante entrevistado por mim não está diante de um pesquisador. Está diante do coordenador do setor de onde vem o auxílio dele.

Ele pode dizer sim quando pensa não. Pode elogiar quando quer reclamar. Pode aceitar participar por achar que recusar é arriscado. E nada disso precisa ser consciente da parte dele nem intencional da minha.

A mesma coisa vale para os servidores. Alguns são da minha equipe.

Isso não invalida a pesquisa. Invalida o desenho.

E o desenho tem conserto, que é o motivo pelo qual vale escrever sobre isso.

Um comitê de ética em pesquisa exigiria, no mínimo, três coisas. Que as entrevistas fossem conduzidas por alguém sem vínculo hierárquico com os participantes. Que os estudantes ouvidos não fossem os atendidos pelo meu setor. E que o termo de consentimento explicitasse a minha função, para que a pessoa soubesse exatamente quem está perguntando.

Nada disso é obstáculo. É a diferença entre um projeto que passa e um que volta.

Mas há uma questão maior, e é sobre a qual eu quero escrever.

Existe uma quantidade enorme de servidores públicos brasileiros fazendo pós-graduação sobre a própria instituição. É natural: é o que se conhece, é onde se tem acesso, e é ali que as perguntas aparecem.

E quase ninguém discute a assimetria.

O gestor que pesquisa o setor que gerencia. O diretor que estuda a escola que dirige. O coordenador que entrevista quem depende do parecer dele.

O conhecimento produzido assim tem um vício silencioso: ele quase nunca encontra crítica à gestão, porque quem responde sabe quem pergunta.

E o mais estranho é que o problema inverso também é verdadeiro, e ninguém fala dele.

Quem está de fora não tem acesso. Consegue autorização, aplica questionário, vai embora, e escreve sobre um lugar em que passou três semanas.

Quem está de dentro tem tudo: o histórico, os bastidores, a memória das decisões, os documentos, a confiança das pessoas.

E não pode usar quase nada disso sem esbarrar na própria posição.

É um beco, e ele não tem saída elegante. O máximo que consegui foi isto: declarar a posição, entregar o instrumento a outra pessoa, e escrever sabendo que o meu crachá está na sala junto comigo.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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