Educação & Cuidado

O nome que sumiu

Resumi um livro de Jean-Marc Ela sobre investigação científica e crise da racionalidade.

E o resumi inteiro no vocabulário de Boaventura de Sousa Santos, que eu havia resumido no documento anterior.

Escrevi que Ela propõe transcender o pensamento abissal. Escrevi que ele advoga por uma ecologia dos saberes.

Esses dois conceitos são de Sousa Santos. Ela não os cunhou, e o que ele diz, diz com termos próprios.

Foi um vazamento. Eu tinha acabado de trabalhar com um vocabulário e ele ficou ligado quando abri o próximo texto. Acontece.

Mas repare no que aconteceu, exatamente.

Jean-Marc Ela era camaronês. Padre católico, teólogo e sociólogo, viveu anos no norte de Camarões trabalhando com camponeses, escreveu um dos textos fundadores da teologia africana da libertação, e morreu no exílio, no Canadá, em 2008.

Ele passou a vida sustentando que o pensamento africano precisa ser lido nos próprios termos, e não traduzido para categorias produzidas em outro lugar.

E eu resumi o livro dele explicando o que ele pensa através das palavras de um sociólogo português.

Ela não aparece no meu resumo como alguém que pensou. Aparece como caso, exemplo, ilustração do argumento de outro.

É exatamente a operação que os dois autores denunciam, executada no ato de resumi-los.

E não é a primeira vez que eu faço isso.

Resumi a Filosofia da História de Hegel sem mencionar que aquele livro exclui a África da história. Escrevi um plano de aula em que a África inteira ocupava metade de uma aula de sessenta minutos, ao lado de uma dança havaiana.

Três vezes, em documentos diferentes, do mesmo período.

E o mecanismo é sempre o mesmo, e não é ódio nem desprezo. É mais barato.

Quando eu não conheço um autor, uso o vocabulário que eu já tenho na mão. Quando não conheço uma tradição, uso o guarda-chuva. Quando não conheço um continente, ele vira um item de lista.

Nenhuma dessas decisões parece grave no momento em que se toma. Cada uma economiza vinte minutos.

E o resultado somado é que um pensador camaronês, que dedicou a vida a recusar a tradução das ideias africanas para categorias europeias, foi resumido por mim como se fosse um comentador de Sousa Santos.

O conserto é pequeno e é chato, que é como quase todo conserto de verdade.

É ler o autor no que ele escreveu, procurar os termos que ele mesmo usa, e citá-lo com o nome dele.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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