Pólis & Gestão

Um projeto sobre cotas sem cotistas

Reli o anteprojeto que escrevi em 2017 sobre a política de cotas no campus onde trabalho, e há uma coisa nele que só se vê olhando os objetivos em bloco.

Eram quatro.

Estabelecer um paralelo entre as práticas organizacionais antes e depois da implementação. Verificar a correlação entre práticas organizacionais e políticas de ações afirmativas. Identificar mudanças nas práticas organizacionais e culturais na transição. Avaliar as práticas organizacionais e culturais conforme a execução da política.

Quatro objetivos. Quatro vezes a expressão práticas organizacionais.

Nenhum deles menciona os estudantes.

O projeto pergunta o que a política de cotas fez com a instituição. Não pergunta o que ela fez com as pessoas para quem foi criada.

Os alunos aparecem uma vez no documento, numa lista de fontes de acesso: gestores, técnicos-administrativos, docentes, discentes e responsáveis. São o quarto item de cinco.

E o mais notável é o que eu mesmo citei ali.

Referenciei um estudo sobre a Universidade Federal de Santa Catarina, que investigou por qual lógica as políticas de ação afirmativa eram conduzidas naquela instituição. A conclusão foi que eram norteadas pela gestão estratégica, e não pela gestão social. Ou seja, as práticas priorizavam o benefício da instituição, e não o do público a que se destinavam.

Escrevi essa frase no meu próprio referencial teórico.

E, na página seguinte, propus um projeto que estuda as práticas da instituição.

Citei o diagnóstico e depois desenhei uma pesquisa com a mesma estrutura que o diagnóstico denuncia.

Isso não é hipocrisia. É o que acontece quando alguém escreve dentro do vocabulário da própria área.

Aquele anteprojeto era para um programa de pós-graduação em Administração. A linha de pesquisa escolhida foi Práticas Organizacionais e Culturais. O objeto legítimo daquele campo é a organização.

Nada ali estava errado pelas regras do lugar onde eu queria entrar.

E é justamente esse o mecanismo.

Quando você escolhe um campo, você herda junto o recorte que ele considera pesquisável. Administração pergunta pela organização. Aceitação de tecnologia pergunta pela adesão. Educação teatral pergunta pelas competências desenvolvidas.

Em cada caso, uma pergunta é feita e outra deixa de existir sem que ninguém decida.

E a pergunta que deixou de existir, nesse caso, é a única que importa para quem entrou pela reserva de vagas.

Ela é curta: como foi para você?

Não cabia em nenhum dos quatro objetivos.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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