• Artes & Narrativas

    Deixar o outro ter razão

    A coisa mais corajosa que Diderot fez em O Sobrinho de Rameau não foi criticar a sociedade francesa. Foi perder a discussão. O diálogo tem dois participantes. De um lado, o filósofo, que representa o próprio autor: sensato, moral, defensor da virtude. Do outro, o sobrinho: parasita, bajulador profissional, alguém que come na mesa dos ricos e paga divertindo-os, e que admite tudo isso sem constrangimento. O filósofo deveria vencer. É ele quem tem razão pelas regras que qualquer leitor traz de casa. E não vence. O sobrinho é mais vivo, mais engraçado, mais honesto sobre a própria degradação, e várias vezes mais lúcido a respeito de como o mundo…

  • Artes & Narrativas

    Uma sala sem ninguém dentro

    Precisei projetar um cenário para uma peça, num trabalho de licenciatura em Teatro. Tinha liberdade total: podia inventar qualquer lugar. Inventei uma biblioteca antiga, numa noite de chuva. Descrevi tudo. Ao fundo, uma grande janela de vidro transparente, através da qual se vê o outro lado. Nas laterais, estantes de madeira repletas de livros antigos, subindo quase até o topo do palco, com luzes turvas. Ao centro, uma janela semiaberta, com árvores balançando ao vento e um raio de vez em quando. No meio, uma grande mesa de madeira coberta de livros abertos. À esquerda, um sofá. Sobre a mesa, um candelabro com vela, uma xícara e uma garrafa de…

  • Educação & Cuidado

    O livro que ficou na bibliografia

    Escrevi um ensaio sobre educação inclusiva e teatro. Doze páginas, dez referências, e uma tese: que o teatro é uma metodologia inclusiva capaz de promover o desenvolvimento de alunos com deficiência. Na bibliografia, no fim de tudo, há uma última entrada que não aparece nenhuma vez no corpo do texto. É um livro chamado A cena contaminada: um teatro das disfunções. Eu o listei e não o abri. E o título sozinho já fazia a pergunta que o meu ensaio inteiro não fez. Porque o meu ensaio parte de um pressuposto que parece generoso e não é. Ele supõe que existe o teatro, que é uma coisa pronta, e que…

  • Artes & Narrativas

    Sitiado por livros

    Entro no quarto e sou imediatamente sitiado por livros. No centro do meu comando repousa uma cadeira de rodinhas, despojo de algum escritório comercial, hoje convertida em memória enferrujada. Os braços descascados denunciam o peso das horas, e o encosto rasgado revela o que já não tem forças para sustentar. Diante dela, dois monitores que brilham como janelas, vigiados por duas webcams, olhos eletrônicos de azul e vermelho que me encaram com o silêncio atento das máquinas. Neste gabinete, as paredes deixaram de ser alvenaria. Tornaram-se muralhas de pensamento empilhadas que cercam o horizonte. Acima, instrumentos repousam em estojos mudos, e basta um olhar para que o jazz de Nova…

  • Educação & Cuidado

    Aproximação e afastamento

    Enquanto eu observava aquela escola, a disciplina me pedia que eu estudasse como se observa uma escola. Havia um questionário. Uma das perguntas queria que eu listasse as marcas da pesquisa do tipo etnográfico, a partir de Marli André. Respondi com sete itens, copiando fielmente o que o texto dizia. Reli aqueles sete itens quatro anos depois e levei um susto. Escrevi que a etnografia permite perceber as situações de encontro e desencontro da rotina escolar. E, nos meus diários, eu havia registrado dois alunos sentados sozinhos numa biblioteca, sem interagir com ninguém nem entre si, que eu chamei de ilhas afastadas. Escrevi que a etnografia permite reconstruir a linguagem…

  • Filosofia & Teologia

    A renúncia invisível

    A jornada da fé nem sempre é suave. Às vezes as lutas são tão reais quanto uma enxaqueca que beira a náusea, fruto, confesso, de um vício assumido em café e das demandas burocráticas que nos cercam. E, entre uma dor de cabeça e uma ligação administrativa, permanece a convocação: não abandonar a Palavra. Para muitos, o jejum é o sacrifício visível. O estudo teológico é a renúncia invisível. Aprofundar-se nas Escrituras exige o abandono do comodismo e da preguiça intelectual, e há um preço em tempo e foco para quem deseja crescer em Cristo. O ponto de partida está numa distinção: a Trindade imanente e a Trindade econômica. A…

  • Educação & Cuidado

    Obesidade de informações

    Quem partilha da minha rota conhece o meu vício mais enraizado: a paixão por aprender. Não falo da absorção rasa e utilitarista de informações que a modernidade nos empurra goela abaixo. Refiro-me ao aprendizado vertical, àquele mergulho em que cada texto é dissecado para pavimentar a construção de um saber denso. E, sim, eu leio muito, mas a maturidade me ensinou uma verdade dura: volume não é sinônimo de profundidade. É vital ler bem, de forma combativa, atacando as palavras com a fome de quem deseja desvendar a espinha dorsal daquilo que se oculta nelas. Foi no meio dessa busca que uma recomendação ouvida no programa do professor Olavo de…

  • Educação & Cuidado

    A coragem de se localizar

    A cartografia do sagrado exige um marco zero. O livro de Gênesis abre com “no princípio”, e é essa a lição que ele oferece antes de qualquer conteúdo: nenhuma travessia começa sem princípio declarado. O texto tem o seu, e quem lê precisa do seu. Assim como o viajante depende de um mapa, o estudante precisa de um ponto de origem para que a sua jornada ganhe tração. Todo aprendizado autêntico repousa sobre uma localização precisa. Ninguém se lança ao mar sem conhecer o próprio porto. Na teologia, a consciência dessa latitude espiritual é o primeiro pré-requisito. Você pode ainda não ter delineado a sua linha de chegada, mas ocupa,…

  • Educação & Cuidado

    A poeira da caminhada

    Em uma era de informação condensada, a leitura integral de uma obra tem perdido terreno para a tirania dos resumos. O mergulho completo no texto, porém, é a única via para uma compreensão profunda. Ler um livro inteiro não é exercício de absorção de dados: é aproximar-se da arquitetura completa do pensamento do autor, capturando as camadas de significado que a pressa jamais reproduz. Um resumo, por sua natureza utilitária, oferece uma visão mutilada. Sacrifica as minúcias e a riqueza contextual, e entrega ao leitor apenas a sombra da visão original, o que cerceia a possibilidade de um entendimento crítico e autônomo. Ler sem atalhos é uma prática formativa. Forja…

  • Educação & Cuidado

    Mortimer Adler

    Mortimer J. Adler foi filósofo, educador e coeditor, com Robert Hutchins, do projeto Grandes Livros do Mundo Ocidental, além de criador do Syntopicon. Compreendia a educação como a própria respiração da vida humana, e não como um confinamento de sala de aula. Sua obra ergue-se como um manifesto contra a superficialidade, pautada pela convicção de que qualquer pessoa tem o direito, e o dever, de acessar as obras que forjaram o pensamento ocidental. Ler os clássicos, para ele, era a aquisição das chaves necessárias para destrancar uma existência plena e consciente. Adler recusava a premissa de que a sabedoria profunda deveria ser monopólio de especialistas. Seus textos são provocações para…