O livro que ficou na bibliografia
Escrevi um ensaio sobre educação inclusiva e teatro. Doze páginas, dez referências, e uma tese: que o teatro é uma metodologia inclusiva capaz de promover o desenvolvimento de alunos com deficiência.
Na bibliografia, no fim de tudo, há uma última entrada que não aparece nenhuma vez no corpo do texto.
É um livro chamado A cena contaminada: um teatro das disfunções.
Eu o listei e não o abri. E o título sozinho já fazia a pergunta que o meu ensaio inteiro não fez.
Porque o meu ensaio parte de um pressuposto que parece generoso e não é.
Ele supõe que existe o teatro, que é uma coisa pronta, e que existem alunos com deficiência, que precisam ser incluídos nele. A tarefa, então, seria adaptar as práticas teatrais às necessidades específicas desses alunos, para que possam participar.
Adaptar. Incluir. Acolher. São essas as palavras que eu repeti.
Todas elas descrevem um movimento de fora para dentro, e todas pressupõem quem já está dentro e quem está esperando na porta.
A expressão “teatro das disfunções” aponta para o contrário.
Existe uma linha inteira de pesquisa e de prática que sustenta que corpos que funcionam de outro jeito não produzem uma versão adaptada do teatro conhecido. Produzem outra coisa, com estética própria, tempo próprio e regras próprias. E que essa outra coisa, quando aparece, não pede licença para entrar: ela muda o que se entende por cena.
Um ator cego não é um ator que precisa de adaptação para fazer o que os videntes fazem. Ele é alguém para quem espaço, som e proximidade funcionam de outra maneira, e isso reorganiza tudo o que estiver em volta dele no palco.
A pergunta muda de lugar.
Deixa de ser como incluímos essas pessoas no nosso teatro, e passa a ser que teatro nasce quando essas pessoas fazem teatro.
Eu não fiz essa pergunta. Escrevi doze páginas sobre acolhimento, desenvolvimento de habilidades sociais e adaptação de práticas, e deixei o único livro que apontava para outro lado morrendo na última linha da bibliografia.
E o motivo eu conheço, porque já escrevi sobre ele: quando não se conhece uma coisa, aparece o guarda-chuva.
Eu não conhecia aquele campo. Sabia repetir a linguagem das políticas de inclusão, que é a linguagem que eu uso no trabalho todos os dias. E entreguei um ensaio inteiro nessa língua, sem perceber que ela já continha uma resposta antes de eu formular a pergunta.
Listar um livro sem abri-lo é uma coisa comum e quase inofensiva.
Mas às vezes o livro que ficou de fora é justamente o que teria desmontado o texto.


