Artes & Narrativas

Quando a técnica esconde

Num ensaio sobre cinema, registrei uma objeção que alguns críticos fazem ao plano-sequência: que a proeza técnica pode servir para encobrir a falta de conteúdo do roteiro, produzindo uma ilusão de complexidade e sofisticação.

Escrevi isso num parágrafo e voltei a elogiar o filme no seguinte.

Mas a objeção é séria, e ela não é sobre cinema.

Existe um tipo de virtuosismo que funciona como distração. A câmera não corta durante vinte minutos, e o espectador fica tão ocupado admirando o feito que não pergunta se aquelas vinte cenas tinham o que dizer. A dificuldade da execução passa a valer como qualidade da obra.

É um truque antigo e não é exclusivo de ninguém.

Eu o pratiquei durante vinte anos por escrito.

Passei este último ano relendo tudo o que escrevi desde 2006, e a conta é constrangedora. Chamei a mesma sensação de âncora vinte e quatro vezes. Usei a palavra brutal e suas variações vinte e sete vezes. Falei em força gravitacional, ímã e magnetismo mais de vinte vezes. Recorri a palco vinte e uma vezes. Milésimo de segundo, dezenove.

Nenhuma dessas palavras estava ali porque era a certa. Estavam ali porque produzem efeito.

E o efeito é exatamente o do plano-sequência: enquanto o leitor admira a imagem, ele não repara que a frase não afirmou nada.

O teste é simples e é cruel. Tire a figura de linguagem e veja o que sobra.

Se sobrar uma afirmação, a imagem estava ajudando. Se não sobrar nada, a imagem era o conteúdo, e conteúdo feito só de imagem é decoração.

Fiz esse teste em duzentos e tantos textos meus. Muitos passaram. Vários não.

E o que mais me impressiona é onde a proeza técnica aparece com mais frequência: ela aparece exatamente nos textos em que eu tinha menos a dizer.

Quando eu tinha uma cena de verdade, um sofá vermelho, um ônibus lotado, um papel amarelo de cartório, eu escrevia direto, com frases curtas, sem uma única figura. Não precisava.

Quando eu não tinha o que dizer, aparecia a âncora que ninguém atirou.

O ornamento não é o pecado. O ornamento é o sintoma.

Ele avisa, para quem souber ler, que naquele parágrafo faltou matéria e o autor cobriu o buraco com habilidade.

E isso vale para o cinema, para a pregação, para o relatório de gestão e para a tese.

Aliás, vale sobretudo para a tese, porque na universidade o ornamento tem outro nome e outro prestígio. Chama-se aparato. E um parágrafo com quatro citações pode estar fazendo exatamente o que faz um plano-sequência de vinte minutos: impedir que alguém pergunte se ali dentro havia uma ideia.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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