Educação & Cuidado

Aproximação e afastamento

Enquanto eu observava aquela escola, a disciplina me pedia que eu estudasse como se observa uma escola.

Havia um questionário. Uma das perguntas queria que eu listasse as marcas da pesquisa do tipo etnográfico, a partir de Marli André. Respondi com sete itens, copiando fielmente o que o texto dizia.

Reli aqueles sete itens quatro anos depois e levei um susto.

Escrevi que a etnografia permite perceber as situações de encontro e desencontro da rotina escolar. E, nos meus diários, eu havia registrado dois alunos sentados sozinhos numa biblioteca, sem interagir com ninguém nem entre si, que eu chamei de ilhas afastadas.

Escrevi que a etnografia permite reconstruir a linguagem e os significados criados no cotidiano do fazer pedagógico. E eu havia anotado, sem comentar, que a escola chama de descaracterizado o aluno que está sem uniforme.

Escrevi que a etnografia permite entender o cotidiano de dominação e resistência. E eu havia descrito um professor que entrou no jogo da turma, que dançava conforme a música e conciliava orvalhos de conteúdo com uma torrente de interações discentes.

Escrevi que a etnografia permite ver a escola como espaço social onde há movimentos de aproximação e de afastamento. E eu havia registrado uma escola que está dentro de um bairro e não participa dele, uma direção afastada da pedagogia, e famílias que se manifestam individualmente porque não existe nada que as reúna.

Sete marcas na primeira página. Sete achados espalhados pelos diários.

E nenhuma linha, em nenhum dos documentos, ligando uma coisa à outra.

Eu estava fazendo exatamente o que estava estudando, ao mesmo tempo, em cadernos diferentes, e não percebi.

Isso acontece muito, e não é burrice. É o efeito da separação entre as disciplinas. A teoria estava num arquivo chamado questionário, com data de entrega e nota. A observação estava noutro arquivo, chamado diário de bordo, com outra data de entrega e outra nota. Cada um cumpriu a sua exigência formal, e ninguém pediu que conversassem.

O curso ensinou a fazer etnografia e o curso pediu uma etnografia. E, entre as duas coisas, faltou o único passo que interessa: alguém dizer que o que você está escrevendo naquele caderno é o que você acabou de definir naquele questionário.

Eu descobri sozinho, meses depois, relendo papéis velhos.

O que talvez seja, no fim das contas, a única maneira de descobrir.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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