Filosofia & Teologia

Todos disseram a mesma coisa

Reli, de uma vez, os resumos que escrevi para as disciplinas de filosofia. E encontrei uma coisa que não aparece quando se lê um por vez.

No resumo de Nietzsche, concluí que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, moldada pelo contexto cultural e histórico.

No resumo de Fourez, concluí que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, sempre relativa a um contexto específico.

No resumo de Descartes, concluí que o universo não é apenas criação divina, mas também criação da mente humana, uma realidade construída racionalmente.

Três autores. Três séculos diferentes. Três projetos filosóficos incompatíveis entre si.

E a mesma frase no fim dos três.

O caso de Descartes é o mais escandaloso, porque ali eu não simplifiquei: eu inverti. A Quarta Parte do Discurso existe justamente para garantir, através de Deus, que as ideias claras e distintas correspondem a uma realidade que existe fora de mim. Descartes passa o texto inteiro tentando escapar da hipótese de que o mundo é produto da minha mente. Era o pesadelo dele, não a tese.

Com Nietzsche, o problema foi outro. Ele diz que as verdades são metáforas gastas de tanto uso, e que esquecemos que eram metáforas. Isso é uma acusação de preguiça, não uma autorização para inventar. Quem diz que tudo é construção não está seguindo Nietzsche: está fazendo exatamente o que ele descreve, que é repetir uma fórmula sem examinar de onde veio.

Com Fourez, a simplificação foi menor, mas na mesma direção. Ele mostra que a observação é carregada de teoria, e o livro dele é sobre ética das ciências, não sobre dissolvê-las.

Três leituras diferentes, e todas terminaram no mesmo lugar.

Isso não é coincidência, e a explicação me incomoda.

Existe uma conclusão de prestígio, disponível a qualquer momento, que serve para qualquer autor e que soa sofisticada em qualquer contexto: tudo é construído, tudo é relativo, tudo depende do ponto de vista.

Ela funciona como um encaixe universal. Você lê um texto difícil, extrai o que consegue, e no último parágrafo aciona a fórmula. O trabalho parece concluído. Ninguém contesta, porque contestar exige ler o original.

E é aí que a coisa fica séria.

Se três autores incompatíveis produzem, na minha leitura, a mesma conclusão, então a conclusão não veio deles.

Veio de mim, ou do ambiente em que eu leio, e eu a coloquei na boca dos três.

Que é, ironicamente, exatamente o que Nietzsche descreve: uma fórmula tão repetida que ninguém lembra mais que era uma afirmação, e que agora passa por descrição do mundo.

Uma moeda gasta.

E eu paguei com ela três vezes seguidas.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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