Talvez possa ser caracterizado
Um menino saiu da biblioteca porque uma menina e dois meninos ficaram zoando o desenho que ele havia feito.
Foi isso que aconteceu, e eu vi.
E foi assim que eu registrei no meu diário de estágio:
Nesta aula presenciei um momento que talvez possa ser caracterizado como bullying.
Talvez. Possa. Ser caracterizado.
Três atenuações numa frase de doze palavras, para descrever uma criança abandonando uma sala porque outras três riram do trabalho dela.
Eu sei de onde vem esse jeito de escrever. Sou servidor público há quase vinte anos e instruo processos. Aprendi, por ofício, que caracterizar errado tem consequência, que adjetivo em documento vira prova, e que quem escreve relatório deve descrever a conduta e deixar a tipificação para quem tem competência para tipificar.
É uma boa formação. Ela protege muita gente.
E ela me atrapalhou naquele dia.
Porque não era um documento disciplinar. Era um caderno de observação de estagiário, lido por uma professora, sem consequência para ninguém. E o que estava em jogo não era enquadrar conduta: era registrar que um menino de treze anos foi humilhado pelo desenho que fez e não conseguiu continuar na sala.
Não é a primeira vez que faço isso.
Quando um professor me abordou com hostilidade num corredor, escrevi na linha seguinte que o ambiente da escola era, em termos gerais, cordial e educado. Quando o professor de Artes comprou uma caixa de sessenta lápis de cor para um aluno pobre, anotei que aquele tipo de proximidade pode ser boa ou ruim dependendo de como as relações se desenvolvem.
Três vezes o mesmo movimento. Vejo uma coisa forte acontecer e imediatamente a coloco num invólucro administrativo.
Não é frieza. É a mão treinada de quem passou a vida escrevendo em documentos que podem ser usados contra alguém, inclusive contra quem os escreve.
Mas há um preço, e ele é este: a linguagem que protege também esfria. E há situações em que esfriar é o mesmo que não ver.
O menino saiu da biblioteca. Ninguém o seguiu. A aula continuou.
Isso não é um momento que talvez possa ser caracterizado como alguma coisa.
Isso é uma criança sendo humilhada em público, e mais um adulto na sala fazendo anotação.


