A metodologia comporta o desejo
Num relatório de estágio, entre uma consideração sobre jogos teatrais e outra sobre cultura local, eu escrevi a tese central de tudo o que viria a pesquisar depois.
Está assim:
A metodologia é uma invenção que cria limites para que o aluno possa chegar onde o professor deseja que ele chegue. A metodologia comporta dentro de si mesma o desejo. Ela em si é crua e seca, mas há um sentimento pulsante dentro dela, pois deseja levar a experiência a um determinado lugar, em busca de um resultado já conhecido.
E completei, na sequência: a metodologia não permite a construção do novo, apenas uma inovação. Permite aperfeiçoamento, mas não criação. Tudo o que for criado através de uma metodologia já é conhecido por outro.
Reli isso alguns meses depois e reconheci a minha própria pesquisa.
O argumento é este: todo método carrega, embutido, o resultado que quer alcançar. Ele parece neutro, parece apenas caminho, parece técnica. Mas quem desenhou o caminho já sabia aonde queria chegar, e desenhou para chegar lá.
Por isso um método bem construído produz exatamente o que se espera dele. Essa é a virtude e é o problema.
Não estou dizendo que metodologia seja ruim. Escrevi, no mesmo parágrafo, a ressalva que ainda subscrevo: para quem não tem experiência segura, a metodologia traz segurança. É o corrimão de quem ainda não sabe descer a escada, e ninguém deve tirar corrimão de ninguém.
O que ela não faz é produzir o desconhecido, porque não se constrói caminho para um lugar onde nunca se esteve.
Eu havia escrito uma versão disso em 2013, num texto sobre modelos de gestão, quase dez anos antes de entrar naquela escola: que o perigo dos modelos é a forma impor soberania sobre a intenção, e a rigidez do processo engessar o objetivo da organização.
Em 2013, num escritório. Em 2022, numa sala de aula. E hoje, num projeto de tese sobre o que os sistemas algorítmicos fazem com quem estuda e com quem ensina.
Três vezes a mesma coisa, em três linguagens diferentes, e eu levei todo esse tempo para perceber que estava dizendo sempre a mesma frase.
E há uma consequência prática que eu também anotei, sem desenvolver.
Escrevi que o perigo para o professor é medir os alunos pela própria régua cultural, e que isso constitui um limite na construção da arte e da cultura.
É a mesma tese aplicada a gente.
Um professor que avalia expressão artística usando os próprios critérios de gosto não está avaliando: está verificando o grau de aproximação do aluno em relação a ele mesmo. E aí o resultado da aula estava decidido antes de a aula começar, exatamente como no caso do método.
A pergunta que fica, e que eu não sei responder nem hoje, é o que se faz com isso.
Porque não dá para ensinar sem método, e não dá para avaliar sem régua.
O máximo que consegui até agora é lembrar, toda vez, que a régua é minha.


