Artes & Narrativas

Levantar da cadeira

Em 2022, num relatório de estágio, escrevi uma frase sobre Augusto Boal que hoje me parece uma confissão.

Escrevi que percebi no Teatro do Oprimido uma joia experiencial. E completei: não pude utilizar na minha experiência explícita, mas somente, até o momento, imaginativa.

Uma joia que eu só consegui imaginar.

O Teatro do Oprimido tem uma premissa única, e ela é radical: acabar com a separação entre quem atua e quem assiste. Boal chamava de espect-ator a pessoa que estava na plateia e se levanta. A cena mostra uma opressão, e o público não aplaude nem discute: alguém entra em cena, substitui o oprimido e tenta outra saída.

O método inteiro depende de uma coisa só.

Alguém precisa levantar da cadeira.

E é aí que ele me interessa mais do que qualquer outro, porque o meu arquivo inteiro é sobre pessoas que não levantam.

Observei uma turma de oitavo ano numa biblioteca e vi dois alunos sentados isoladamente, que fizeram todos os exercícios corretamente, sozinhos, e não pediram nada a ninguém durante a aula inteira. Chamei de ilhas afastadas.

Vi um menino sair daquela mesma biblioteca porque três colegas riram do desenho dele. Ninguém foi atrás. Ele não voltou.

Vi um aluno sem uniforme atravessar uma aula inteira sem que uma única pessoa dirigisse a palavra a ele.

E sonhei, uma noite, que entrava num teatro abandonado de cabeça baixa e sentava na última fileira, na poltrona mais escura que encontrei, enquanto um menino subia num caixote no palco e caía.

Nesse sonho, quem ficou sentado fui eu.

O menino desceu, atravessou o corredor e perguntou por que eu estava escondido ali. Respondi que era seguro, porque quem não sobe não pode ser puxado para baixo.

Boal construiu um método inteiro para resolver esse problema exato.

E é por isso que a minha frase de 2022 dói: não pude utilizar, somente imaginar.

Um homem que passou quarenta anos sem levantar da cadeira leu sobre o teatro que existe para fazer as pessoas levantarem, achou uma joia, e não usou.

Não por falta de oportunidade. Eu estava dentro de uma escola, com turmas, com horário e com autorização para dar aula.

Faltou outra coisa.

Porque para conduzir teatro-fórum é preciso alguém que sustente uma sala inteira enquanto ela decide se alguém vai se levantar ou não. É preciso aguentar o silêncio constrangedor que vem depois da pergunta. É preciso não preencher esse silêncio, e esperar.

Eu não sei fazer isso ainda.

Sei escrever sobre gente que não levanta. Sei reconhecer, do fundo da sala, exatamente quem são as duas pessoas que ninguém está olhando.

E não sei convidá-las para o palco.

Talvez seja esse o texto que falta na minha formação, e ele não é teórico.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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