A moral provisória
Resumi o Discurso do Método e deixei de fora a parte que mais me diz respeito.
Descartes decidiu duvidar de tudo. Suspender qualquer coisa que não se apresentasse com clareza suficiente para excluir a dúvida, e reconstruir o conhecimento a partir do que restasse.
E aí ele fez uma coisa que quase ninguém comenta.
Na terceira parte, antes de começar a demolição, ele adota o que chama de moral provisória: um conjunto de máximas para viver enquanto a dúvida estivesse em andamento.
Decidiu obedecer às leis e aos costumes do seu país. Decidiu conservar a religião em que fora criado. Decidiu ser firme e resoluto nas ações, seguindo até as opiniões duvidosas com constância depois de escolhidas. E decidiu procurar mudar a si mesmo antes da ordem do mundo.
A imagem que ele usa é de obra: quem vai derrubar a própria casa para reconstruí-la precisa de um alojamento onde morar enquanto trabalha.
Ele não suspendeu a vida para duvidar. Alugou um quarto.
Eu preciso desse conceito, e precisava havia anos sem saber que tinha nome.
Este ano publiquei um texto perguntando se, no leito de morte, o vigor da alma não estaria subordinado à ruína da carne. Publiquei outro sobre a expressão “os sinais que o universo envia” entrando nos cultos evangélicos. Escrevi que não sei mais de que lado do muro está uma política educacional que eu antes defendia sem reservas.
E continuo pregando toda semana.
Já me acusei de incoerência por isso. Já pensei que quem tem dúvida deveria calar até resolver, e que continuar no púlpito com perguntas em aberto é uma espécie de fraude.
Descartes responde, e a resposta tem quase quatrocentos anos.
Quem espera resolver tudo antes de agir não age nunca, porque não há data para o fim da dúvida. E ficar parado no meio da obra, sem casa e sem alojamento, não é honestidade intelectual: é ruína.
Há uma condição, e ela é o que separa a moral provisória da hipocrisia.
O provisório precisa saber que é provisório.
Descartes não fingiu ter certeza das coisas que conservou. Declarou, por escrito, que as mantinha por ora, por razões práticas, enquanto examinava.
Foi o que eu fiz sem nomear.
Prego o que recebi, dentro da tradição que me ordenou, e publico as minhas objeções assinando. Não escondo nenhuma das duas coisas de ninguém.
E há um limite, que Kant marcou em outro lugar e que vale aqui: se um dia eu concluir que o que ensino contradiz o que creio, saio.
Enquanto isso, moro no alojamento.
E vou continuar mexendo na casa.


