A razão instrumental no púlpito
Adorno e Horkheimer sustentam que a razão que se propôs a libertar acabou virando instrumento de dominação. Que o esclarecimento, ao destruir o mito, produziu um novo mito, feito de cálculo. E que a razão instrumental reduz o conhecimento àquilo que é quantificável e útil para o controle.
Resumi esse capítulo para uma disciplina como exposição histórica. Iluminismo, dialética, indústria cultural.
E não escrevi a única coisa que eu, especificamente, tinha condições de escrever.
Sou ministro do Evangelho. Diante daquela crítica, a posição óbvia da minha tradição seria defensiva: eles atacam a razão que quis destruir a fé, portanto estão do nosso lado sem saber.
Não é isso, e a inversão é o que interessa.
Porque a razão instrumental que eles descrevem entrou na igreja, e entrou fundo.
Razão instrumental é aquela que não pergunta se uma coisa é boa. Pergunta se funciona. Ela transforma qualquer domínio em técnica, mede o resultado, otimiza o processo e descarta o que não rende.
Aplicada à fé, isso produz uma coisa reconhecível: a oração como método, o dízimo como investimento com retorno esperado, o culto planejado por curva de emoção, o sermão avaliado por reação da plateia, a fé descrita como princípio que ativa resultados.
Não é ateísmo. É pior, do ponto de vista de quem crê: é a fé convertida em tecnologia de obtenção.
Eu conheço isso de dentro.
Guardo um livro em casa com a minha assinatura na folha de rosto e a data de julho de 2011. Escrevi sobre ele, anos depois, que oferecia um caminho de certezas onde a dúvida mal tinha espaço para respirar, e que era um livro de respostas prontas.
Aquilo não é misticismo excessivo. É racionalidade instrumental com vocabulário devocional. Entradas, procedimento, resultado garantido.
E cortei, revisando vinte anos de textos meus, uma expressão que eu havia usado repetidas vezes: prosperidade absoluta. Cortei porque contradizia seis outros textos meus, e porque é exatamente essa lógica.
Adorno e Horkheimer diriam que o esclarecimento voltou a ser mito. No meu campo, aconteceu o caminho inverso e chega no mesmo lugar: o mito virou procedimento.
E é aqui que eu discordo deles em uma coisa, e a discordância é a única contribuição que eu tenho.
Eles escrevem como se a alternativa à razão instrumental fosse uma razão de outro tipo, mais ampla, ainda por construir.
Do lugar onde eu trabalho, a alternativa não é uma razão melhor.
É aceitar que existem coisas que não devem ser otimizadas. Que um velório não é um processo com indicador de eficácia. Que a graça, se for mesmo graça, é o oposto exato de um método com resultado previsível, porque ela não é conquistada.
O que a minha tradição tem a oferecer àquela crítica não é uma defesa.
É a lembrança de que algumas coisas se recebem, e que tudo o que se recebe está fora do alcance da técnica.
Só que a minha tradição esqueceu isso antes de qualquer iluminista.


