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Um resumo sem autor

Reli, de uma vez, todos os resumos que escrevi para as disciplinas de filosofia e ciências sociais.

Aristóteles, Kant, Descartes, Hume, Hegel, Nietzsche, Marx e Engels, Fourez, Hempel, Humphreys, Diderot.

Onze textos. Dezenas de páginas.

E em nenhuma delas eu apareço.

Não há uma frase em que eu diga que discordo. Não há um parágrafo em que eu ligue o que li a alguma coisa que vi. Não há uma pergunta minha. Não há sequer um registro de dificuldade, do tipo “não entendi esta passagem” ou “isto me parece frágil”.

Onze autores, e o leitor daqueles resumos não consegue saber se quem os escreveu é ateu ou pastor, tem vinte anos ou quarenta, mora no Espírito Santo ou em Portugal, trabalha em escola ou nunca entrou numa.

Escrevi como se resumir fosse desaparecer.

E isso tem custo, porque eu tinha o que dizer.

Kant descreve o eclesiástico que ensina dentro do ofício e publica objeções como sábio. Eu sou um eclesiástico que publica objeções. Não escrevi.

Hume mostra que a crença nasce do costume e da repetição. Eu repito um vocabulário fechado toda semana, diante de gente que confia. Não escrevi.

Hegel exclui a África da história. Eu coordeno um núcleo de estudos afro-brasileiros. Não escrevi.

Humphreys construiu uma lista de pessoas cuja exposição as destruiria. Eu quase publiquei uma confissão pastoral com igreja, período e endereço. Não escrevi.

Marx propõe olhar primeiro para as condições materiais. Eu tinha, na gaveta, meses de diário de campo numa escola pública provando exatamente isso. Não escrevi.

Onze encontros possíveis, e onze resumos em que nada encontrou nada.

A explicação fácil é dizer que resumo não é lugar de opinião, e que a disciplina pedia síntese.

Isso é verdade e é insuficiente, porque existe uma diferença entre não opinar e não estar presente.

Um bom resumo tem autor. Ele escolhe o que destacar, e a escolha revela quem escolheu. Ele nota o que o texto não resolve. Ele diz, quando é o caso, que aquela passagem incomoda.

Nada disso é opinião no sentido proibido. É apenas o registro de que alguém leu.

O que eu produzi foi outra coisa: um relatório sobre o conteúdo de um livro, feito por ninguém em particular, que qualquer pessoa poderia ter assinado.

E aí está a ironia de tudo isso.

Passei este ano descobrindo que os melhores textos do meu arquivo são justamente aqueles em que eu estou inteiro dentro. Um homem com ciúme de um livro de banca. Um rapaz humilhado num ônibus. Um cartório, um papel amarelo e a minha mãe do lado.

E, nos onze textos em que eu deveria conversar com os maiores pensadores que já li, eu saí da sala.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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