Educação & Cuidado

13 de dezembro

O cronograma tinha cinquenta linhas e a última dizia isto:

Aula 50, 13 de dezembro de 2022, apresentação da peça.

Antes dela vinham quatro ensaios gerais. Antes dos ensaios, o jogo de luz, o figurino e o cenário. Antes disso, seis meses de corpo, voz, improviso e roteiro. E, na primeira linha, um café.

A peça não aconteceu, e as razões são três.

O calendário acadêmico não comportou o evento.

O professor da disciplina não demonstrou interesse.

E não havia nenhum aluno empolgado com a ideia.

A terceira é a mais difícil de escrever e é a única que eu já sabia.

Eu tinha entrevistado aqueles alunos meses antes. Perguntei o que achavam das aulas de Artes e eles responderam que não consideravam importante. Anotei no relatório que interpretavam a disciplina como um recreio expandido, e que havia neles um pragmatismo que me espantou pela idade.

Escrevi isso, e depois projetei cem horas de teatro em contraturno para as mesmas pessoas.

Não chamo isso de ingenuidade. Chamo de distância entre o que um projeto quer e o que o campo aguenta, que é a coisa mais comum do mundo e a que menos se escreve.

A segunda razão também não é vilania.

Aquele professor era bom. Comprou uma caixa de sessenta lápis de cor para um aluno cuja família não podia comprar. Evitava a sala convencional e levava as turmas para a sala de Artes e para a biblioteca. Gostava dos alunos e gostava de dar aula.

E não se empolgou com cinquenta encontros extras, em contraturno, sob responsabilidade dele, propostos por um estagiário de passagem.

Ele tinha três turmas, cinquenta minutos por aula e uma ocorrência para evitar. A conta dele estava certa.

E a primeira razão, o calendário que não comportou, é o nome burocrático da mesma coisa que as outras duas.

Não havia folga.

Não havia folga na agenda do professor, não havia folga no ânimo dos alunos, não havia folga no calendário. E eu escrevi um projeto de cem horas para dentro de um sistema que não tinha nenhuma.

O mais impressionante é que eu já tinha registrado isso, no primeiro dia em que pisei naquela escola, sem entender o que estava registrando.

Anotei que a coordenadora me levou por um corredor procurando uma sala vazia para conversarmos. Abriu a primeira: ocupada. A segunda: ocupada. A terceira: ocupada. Só na quarta havia lugar.

Um prédio inteiro de faculdade, e quatro portas até encontrar espaço para uma conversa de vinte minutos.

Eu vi aquilo antes de escrever uma linha do projeto.

E ainda assim escrevi cinquenta aulas.

Trinta e um adolescentes nunca souberam que a aula quatorze seria uma caminhada pelo bairro deles. Nunca souberam que cinco encontros seguidos foram reservados para eles aprenderem o que fazer com o que sentem, porque alguém passou meses anotando as brigas e o dia em que um deles saiu da biblioteca porque riram do desenho que fez.

Nunca souberam do café do dia 28 de junho.

Toda escola pública brasileira tem uma gaveta cheia de projetos assim. Feiras, mostras, oficinas, saraus, hortas, corais, grupos de teatro. Documentos completos, com objetivo geral, fundamentação teórica e cronograma, redigidos por gente que acreditava, e engavetados porque não havia folga.

As avaliações institucionais registram o que foi executado. O que ficou no papel não entra em relatório nenhum, e por isso parece que nunca existiu.

Existiu. Alguém sentou e escreveu.

E, meses depois daquela data, eu releio e faço projetos em Teatro.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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