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Promessas que deixamos prescrever
À medida que os anos avançam, a vida desdobra-se como um tribunal silencioso, onde as sentenças por tudo aquilo que deixamos de fazer tomam forma. Cada ano acrescentado à nossa biografia traz uma lucidez implacável, que nos confronta com os passos que a hesitação abortou e com as palavras que sufocamos no instante exato em que o mundo pedia a nossa voz. Esses vereditos não gritam. Sussurram no fundo da consciência, e convocam a um inventário íntimo, onde revisamos quem fomos com a vista cansada de quem já sabe o que poderia ter sido. A cada novo ciclo, carregamos o peso das escolhas acovardadas, das promessas que deixamos prescrever e…
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A claridade arde
Cheguei à filosofia em 2008, pelos cursos de Olavo de Carvalho. Os autores mencionados aqui eu conheço por essa via, e não por leitura direta. O sol, estrela grandiosa que queima com fulgor indomável, carrega seus limites no abraço que dá à Terra. Ele reina como um soberano que ilumina sem jamais tocar, um centro de gravidade que atrai e transforma. E sua majestade nos lembra continuamente de que há algo além de sua própria luz. Como Platão ensinou, o sol visível é um prenúncio, uma pálida lembrança da Forma pura que está além de tudo o que brilha neste mundo. Há uma tragédia humana na relação com a claridade:…
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O cuidado em estado de alerta
O medo é uma presença constante, mas não é o algoz. Ele é o avesso exato da coragem, um espelho implacável que reflete as nossas profundezas e afere a medida da nossa humanidade. Ensina a cautela, forja a humildade e nos impede de encarnarmos heróis incautos, isentos da jornada de incertezas que faz da vida uma coisa inacabada e, precisamente por isso, bela. O encanto da existência reside nesse estado contínuo de quase, no detalhe que ainda nos escapa. Há uma legião de medos, cada qual com seu disfarce: o pavor de não chegar, o terror de não amar, o receio de falhar diante de um grande sonho. À primeira…
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Um ato de amputação
Existe uma ingenuidade perigosa na forma como lidamos com a passagem do tempo: acreditamos que o simples virar da página no calendário é suficiente para nos libertar de quem fomos ontem. Mas o passado possui uma força gravitacional esmagadora. Se não fizermos um esforço consciente para romper com ele, seremos eternamente reféns das nossas memórias, falhas e frustrações. É contra essa inércia que o apóstolo Paulo adverte em Filipenses 3. Quando ele diz que faz apenas uma coisa, esquecer o que fica para trás, não está propondo um exercício de amnésia tola. Está revelando uma estratégia de sobrevivência. Esquecer, no sentido bíblico, é um ato de amputação. É desvincular a…
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Eu sou o que não disse
Eu sou o que não disse. O que não ousou. O que hesitou no instante exato em que o tempo exigia uma resposta. Sou a presença oculta no peito, o sopro incômodo do que poderia ter sido. O mistério que virou silêncio e, depois, lamento. Fui aquele que esperou tanto pelas condições perfeitas que se esqueceu de notar que o prazo da espera havia prescrito. Por medo, fechei os olhos. Por medo, não telefonei. E esse medo me imobilizou a ponto de me tornar apenas um coadjuvante na história que eu mesmo deveria protagonizar. Fui o que machucou sem saber, projetando esperanças no alto e tentando tocá-las com mãos ainda…
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Aquilo que retemos por medo
Nós gostamos de acreditar que estamos no comando. Organizamos nossos dias, antecipamos as crises e carregamos o peso das nossas responsabilidades como se o mundo fosse parar de girar caso soltássemos as rédeas por um segundo. Construímos a nossa segurança sobre a ilusão do controle. Mas então a vida pesa, o cansaço cobra a conta, e somos forçados a encarar uma verdade amarga: por nós mesmos, não conseguimos sustentar a arquitetura da nossa própria existência. É exatamente nesse ponto de exaustão, quando as nossas certezas ruem, que o conselho do Salmo 37:5 nos confronta: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nEle, e Ele tudo fará.” Entregar o caminho não…
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Senhor de si
A que ponto chega a crueldade humana? Pergunto se o progresso e o avanço tecnológico fizeram de nós homens de primeiro mundo. E pergunto o que significa primeiro mundo. Um país desenvolvido economicamente? Tecnologicamente? Ou um lugar onde as pessoas aprenderam a dominar o próprio lado instintivo? Fico com a terceira definição, e é justamente ela que não se sustenta. O domínio dos instintos também serve ao mal. O hipócrita domina os seus, e domina para o mal. O calculista domina os seus e espera. O psicopata é, entre todos, o mais senhor de si. O autodomínio mede quanto alguém consegue segurar. Não diz nada sobre para onde vai o…
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A prisão que você aceitou
As estações mudam, e com elas nossos olhos podem aprender a ver o mundo de novas maneiras. A cada estação, renascemos. E queria que você soubesse que também desejo isso para você: a transformação. Queria que, a cada dia, você se descobrisse novo, que abraçasse a impermanência como quem desvela o mistério de existir. Mas você se torna pedra, imóvel e resistente, celebra a inércia como se ela fosse virtude, sem perceber o quanto ela o afasta da vida. Eu queria ver em seu olhar o brilho do inesperado, a coragem de se surpreender consigo mesmo. Mas você não se permite esse jogo, não conhece a arte da surpresa.…
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O medo de ser livre
Jesus declarou que veio libertar os cativos, dissolver as correntes invisíveis que prendem o homem ao mundo e a si mesmo. Uma liberdade que confronta e desafia o medo. Quando o Espírito de Deus age no homem, ele é liberto do medo que o paralisa, que o reduz a buscar refúgio apenas naquilo que seus olhos podem ver e suas mãos podem tocar. O homem sem Cristo carrega o peso do medo de ser livre. Ele se agarra às coisas que o mundo oferece, teme se render a uma liberdade que não controla. Busca segurança no que pode possuir e naquilo que pode mensurar. Há uma certa tranquilidade em crer…
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Uma laranja para Marcela
Irmãos. Essa palavra ressoa em meus ouvidos com um peso que só o tempo pode moldar. Quando criança, ela era quase abstrata para mim. Mais pesado ainda era o singular: irmã. Um sonho infantil meu era ter um irmão, alguém da minha idade. Mas o que papai e mamãe me deram foi algo diferente. Uma irmã, sete anos mais velha. É curioso pensar quem foi oferecido a quem: ela a mim, ou eu a ela? A lógica aponta que eu fui dado a ela, um pequeno presente para completar o seu reino. O que significa ter uma irmã sete anos mais velha? Para mim, naquela época, significava submissão. Tudo o…


























