• Pólis & Gestão

    Analisar o poder de dentro dele

    Propus, num projeto de pesquisa, analisar como as decisões são tomadas no instituto federal onde trabalho, e como o poder é distribuído entre os agentes da instituição. É um bom objeto. Poucas coisas importam mais numa organização pública do que saber quem decide de fato, e quase ninguém pesquisa isso por dentro. Reli o documento e ele não analisa poder nenhum. O que ele faz é elogiar. A instituição é descrita como renomada, que aparece três vezes. O plano de desenvolvimento institucional é apresentado como instrumento que garante que o poder seja exercido de acordo com as necessidades e objetivos da instituição. As políticas educacionais promovem educação inclusiva, igualdade de…

  • Pólis & Gestão

    Quem carrega o piano

    A atual corrida eleitoral para a Mesa Diretora da CADEESO tem mobilizado lideranças e ampliado o debate sobre o futuro da nossa convenção. Ao analisar as propostas e, sobretudo, a composição das chapas, em especial a encabeçada pelo respeitado Pr. Kemuel Sotero, deparo-me com reflexões que exigem ser compartilhadas com honestidade. O peso de um nome é importante, mas a solidez de uma instituição exige um plano de governança claro e propostas que saiam do papel. Embora a referida chapa levante frequentemente a bandeira da união, a sua estrutura revela uma contradição prática. Caso seja eleita, teremos dois pastores da mesma igreja local ocupando os cargos mais estratégicos da convenção:…

  • Pólis & Gestão

    Foucault virado do avesso

    Escrevi um projeto de pesquisa sobre distribuição de poder no instituto federal onde trabalho, e usei Michel Foucault como referencial teórico. Reli e encontrei frases como estas. Que as técnicas de si são incorporadas de maneira transversal no plano de desenvolvimento institucional. Que o plano define as práticas e técnicas que moldam o comportamento dos estudantes, promovendo a autonomia e a responsabilidade de cada membro. Que a subjetividade dos estudantes é moldada pelas interações educacionais, enquadrando-a dentro de parâmetros desejados que visam à formação de profissionais capacitados. Que essas técnicas de poder são aplicadas para garantir a efetivação das políticas estabelecidas. Tudo isso escrito em tom aprovador. E aqui está…

  • Filosofia & Teologia

    Ler Weber por um brasileiro

    Em um projeto de pesquisa não tinha pesquisa dentro. Mas tinha uma intuição, e a intuição era boa. A ideia era ler Max Weber através de Mário Ferreira dos Santos. Weber é o autor central da minha área. Racionalização, desencantamento. Mário Ferreira dos Santos é um filósofo brasileiro, gaúcho, que morreu em 1968 depois de produzir uma obra de dimensões quase impossíveis, incluindo uma enciclopédia filosófica escrita praticamente sozinho. Ele está fora do cânone universitário brasileiro. É pouco citado em programas de pós-graduação, quase não aparece em bibliografia de disciplina, e circula sobretudo fora da academia. E a ideia de ler um clássico europeu através de um pensador brasileiro é…

  • Artes & Narrativas

    Economia dos meios

    Entre os princípios técnicos do trabalho com bonecos, anotei este: Economia dos meios. A precisão é mais poderosa que a quantidade de ações. E depois listei os outros: o foco, a indicação pelo olhar, a triangulação que busca o diálogo, a manutenção do nível do boneco em relação a um ponto fixo, e a respiração. Todos são formas de fazer menos. Um boneco que se mexe o tempo todo não está vivo. Está agitado, que é outra coisa. O que produz a ilusão de vida é o contrário: um gesto por vez, na hora certa, e depois a quietude. É a pausa que faz o público acreditar, porque é na…

  • Filosofia & Teologia

    Os sinais que o universo envia

    Há uma frase que se tornou comum e que me faz parar toda vez: Preste atenção aos sinais que o universo envia. Ela aparece em livros de autoajuda, em legendas de rede social, em conversa de mesa e, cada vez mais, dentro de igrejas evangélicas. Eu sou ministro do Evangelho. Prego há mais de trinta anos. E a primeira vez que ouvi essa frase num culto, levei alguns segundos para entender o que estava errado. O universo não envia nada. Não é uma questão de gosto nem de rigor doutrinário. É uma questão de gramática teológica. Na fé que eu professo, existe Alguém que fala, e esse Alguém tem nome,…

  • Filosofia & Teologia

    Crenças limitantes

    Existe uma expressão que atravessa toda a literatura de autoajuda e que eu gostaria de examinar com calma: crenças limitantes. A ideia é conhecida. Aquilo que impede uma pessoa de chegar onde quer não está fora dela, está na cabeça dela. São pensamentos negativos, ideias herdadas, convicções sobre a própria incapacidade. Identifique essas crenças, substitua por outras, positivas, e o caminho se abre. Parte disso é verdadeira, e eu sou testemunha. Passei décadas com vergonha do próprio rosto, da voz, do corpo, do sobrenome e da casa. Nada daquilo era descrição da realidade. Era uma sentença que eu repetia sozinho, e ela me custou coisas que não voltam. Nesse ponto,…

  • Artes & Narrativas

    Pertence a Tiago

    Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros. Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia nem da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.” É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma…

  • Artes & Narrativas

    Nem toda brincadeira é jogo

    Numa atividade da licenciatura, escrevi uma distinção que continuo achando certa. Nem toda brincadeira é jogo. E entretenimento não é jogo. O jogo do faz de conta reúne quatro coisas: improvisação, enredo, cenário e uma estrutura lógica de execução. A criança assume um personagem, define um espaço e sustenta uma regra. Isso é teatro, ainda que ninguém ali saiba a palavra. O entretenimento não pede nada disso. Ele chega pronto, com enredo, cenário e personagem já decididos por outra pessoa, e o que se espera de quem recebe é atenção. A diferença é de posição. Numa, você é autor. Na outra, você é destinatário. E aqui eu preciso confessar de…

  • Filosofia & Teologia

    Lombada de couro

    Houve uma época em que a memória operava como uma biblioteca meticulosamente organizada. Até o limiar de 2008, cada lembrança minha possuía uma lombada de couro com o ano gravado a ouro. Eu podia caminhar por esses corredores mentais, retirar um volume da prateleira e saber exatamente onde cada evento começava e terminava. O tempo era uma estrada reta, e eu, um caminhante com um mapa confiável nas mãos. Mas, a partir de 2010, alguma coisa entrou em colapso. Não sei dizer em qual curva o ponteiro quebrou. Parece que o tempo deu um salto e, ao aterrissar, espalhou todas as folhas dos meus arquivos pelo chão. Os anos deixaram…