• Filosofia & Teologia

    O cansaço do escuro

    A rejeição é uma ferida que se recusa a sangrar. É uma pedra invisível atirada contra o peito, cujo impacto não deixa hematoma na pele, mas provoca um estrondo que reverbera na alma. Rejeitar é um ato. Ser rejeitado é um abalo sísmico. São duas margens de um mesmo abismo, e os abismos internos são irreconciliáveis. O primeiro raramente tem a dimensão do peso que acaba de depositar no outro. O segundo é reduzido a objeto descartado, exilado sem direito a sentença, sem a dignidade de uma palavra. Contudo, esse abalo não brota no vácuo. A rejeição só floresce no exato solo onde antes havia a intenção de permanecer, de…

  • Pólis & Gestão

    A ansiedade como resultado

    No meu mestrado, medi a ansiedade tecnológica de 446 servidores diante do sistema eletrônico de ponto. Dois resultados apareceram, e os dois foram confirmados estatisticamente. Quanto maior a ansiedade, menor o uso do sistema. E quanto maior a ansiedade, maior a percepção de dificuldade para usá-lo. Também apareceu, na análise por subgrupos, que as servidoras relataram níveis um pouco mais altos de ansiedade que os servidores. Escrevi, na conclusão, que esses achados destacam a necessidade de suporte técnico e treinamento adequados para mitigar esses sentimentos e facilitar a transição para o novo sistema. Ou seja: encontrei ansiedade e recomendei tratá-la para que a adesão aumentasse. Hoje eu leio de outro…

  • Filosofia & Teologia

    Uso público, uso privado

    Resumi para uma disciplina o texto em que Kant pergunta o que é o esclarecimento, e errei justamente a parte que fala de mim. Escrevi que o uso público da razão é a exposição pública do pensamento crítico, e que o uso privado envolve interesses individuais e busca de sobrevivência. Não é isso, e a inversão apaga o que há de mais interessante ali. Para Kant, uso público da razão é o que alguém faz na condição de sábio, escrevendo diante do público leitor. Esse uso deve ser inteiramente livre. Uso privado é o que a pessoa faz dentro de um cargo que lhe foi confiado. E esse pode ser…

  • Artes & Narrativas

    Levantar da cadeira

    Em 2022, num relatório de estágio, escrevi uma frase sobre Augusto Boal que hoje me parece uma confissão. Escrevi que percebi no Teatro do Oprimido uma joia experiencial. E completei: não pude utilizar na minha experiência explícita, mas somente, até o momento, imaginativa. Uma joia que eu só consegui imaginar. O Teatro do Oprimido tem uma premissa única, e ela é radical: acabar com a separação entre quem atua e quem assiste. Boal chamava de espect-ator a pessoa que estava na plateia e se levanta. A cena mostra uma opressão, e o público não aplaude nem discute: alguém entra em cena, substitui o oprimido e tenta outra saída. O método…

  • Educação & Cuidado

    Vinte e cinco minutos

    Em 2022 assisti a uma entrevista com um mamulengueiro e escrevi uma resenha. Aprendi ali que o mamulengo não se aprendia em oficina, que a transmissão era oral e prática, que se brincava a noite inteira e não duas horas, e que o mestre dizia precisar de um filho para tomar conta da arte quando partisse. E escrevi, com todas as letras, que a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva, entra numa matriz curricular e deixa a arte um pouco enlatada. Em 2023 eu escrevi um plano de aula sobre teatro de bonecos populares. Quatro aulas de sessenta minutos. Na aula dois, os alunos confeccionam bonecos. Tempo previsto para…

  • Filosofia & Teologia

    A coragem dos lúcidos

    Há, na matemática dos valores humanos, uma equação que subverte os números. Não porque uma pessoa valha mais que outra, mas porque aquilo que uma pessoa carrega pode fazer o que muitas, sem aquilo, não conseguem fazer. Um indivíduo armado de esperança realiza o que três desesperançados não realizam. A esperança não é otimismo passivo: é o sopro que move a engrenagem. Enquanto quem desistiu apenas sedimenta o chão do imobilismo, quem ainda crê ergue-se como um farol no nevoeiro. O mesmo vale para o propósito. Um com projeto de vida chega onde quatro à deriva não chegam. A vida sem direção é um barco refém do tédio, e o…

  • Artes & Narrativas

    Coma induzido

    Por entre as camadas silenciosas de um tempo que se foi, carrego a memória de uma voz que não morreu, mas foi sufocada. Sob o peso de ventos contrários e incertezas que se infiltraram no cotidiano, vi a minha liberdade de escrita encontrar a sua primeira barreira. Não eram muralhas intransponíveis, mas um desânimo frio que, pouco a pouco, fez vacilar a chama das minhas convicções. Foi assim que o Ideias para a Vida, que até então era o meu refúgio e o campo onde os meus pensamentos brotavam, mergulhou em um coma induzido. Essa hibernação não silenciou apenas as páginas digitais, mas o meu próprio espírito. O hiato foi…

  • Pólis & Gestão

    Uma senhora toma chá

    Usei, num artigo sobre a invisibilidade das contribuições femininas, o livro de David Salsburg que se chama Uma Senhora Toma Chá. Escrevi que Salsburg narra a história de uma mulher cujas observações simples e rigorosas resultaram em avanços significativos para a estatística moderna, e que foram desconsideradas por causa do gênero dela. Não foi bem isso, e a história verdadeira serve melhor ao meu argumento. O episódio é dos anos vinte, em Cambridge. Numa reunião com chá, uma mulher afirmou que conseguia distinguir se o leite tinha sido colocado antes ou depois do chá na xícara. Os homens presentes acharam graça. Um deles, Ronald Fisher, não achou. Propôs testar: preparou…

  • Educação & Cuidado

    Interseccionalidade sem brasileiras

    Escrevi um artigo defendendo que a análise de gênero nas organizações precisa ser interseccional. Argumentei que as barreiras enfrentadas por mulheres negras, mulheres pobres e mulheres de minorias étnicas são ignoradas quando se fala apenas em gênero, e que uma teoria que não considera essas camadas produz uma exclusão adicional. Está certo, e continuo sustentando. Agora olhe a bibliografia daquele artigo. Nancy Fraser, estadunidense. Iris Marion Young, estadunidense. Seyla Benhabib, turca radicada nos Estados Unidos. Kimberlé Crenshaw, estadunidense. Pierre Bourdieu, francês. Jürgen Habermas, alemão. Max Weber, alemão. Boaventura de Sousa Santos, português. David Salsburg, estadunidense. Nenhuma autora negra brasileira. Nenhuma autora brasileira, aliás. Escrevi sobre a exclusão de mulheres em…

  • Educação & Cuidado

    Crawford

    Escrevi um artigo sobre as barreiras que impedem mulheres de chegar a cargos de gestão. O artigo tem uma seção inteira intitulada “Invisibilidade das Contribuições Femininas”. Nela, argumento que o trabalho das mulheres é sistematicamente desvalorizado ou apropriado, e que é preciso criar mecanismos de reconhecimento para romper esse ciclo. E argumento, ao longo do texto, que a teoria de Habermas precisa de uma análise interseccional, porque mulheres negras, pobres e de minorias étnicas enfrentam opressões que se cruzam. No corpo do artigo, o nome aparece corretamente: Kimberlé Crenshaw, 1991. Na lista de referências, está escrito assim: CRAWFORD, Kimberlé. O título do artigo dela está certo. A revista está certa.…