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Aprendi a escutar
Numa autoavaliação de disciplina, escrevi que desenvolvi habilidades de escuta atenta e que aprendi a cultivar a empatia. Eu tinha trinta e oito anos. Fazia mais de vinte que eu pregava, o que significa ficar semanalmente diante de gente que chega com alguma coisa quebrada e espera que você diga algo que sirva. Fazia mais de dez que eu trabalhava com assistência estudantil, recebendo adolescentes que sentam na cadeira e contam coisas que não contaram a mais ninguém. E escrevi, num formulário de licenciatura, que naquele semestre eu havia aprendido a escutar. Não é mentira. É pior: é a resposta que o formulário exige. A pergunta era “quais saberes eu…
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A autoavaliação que não avalia
Escrevi duas autoavaliações de disciplina durante a licenciatura, com um ano de diferença. Uma delas é o documento mais honesto que eu já entreguei a uma universidade. A outra não diz absolutamente nada. A primeira é de maio de 2022. O formulário pedia os pontos fracos do meu percurso, e eu respondi com uma lista de marcadores: o retorno presencial depois da pandemia, o acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor, problemas de saúde, mortes na família, dívidas que eu não estava conseguindo pagar. E, num campo sobre estratégias de estudo, escrevi em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico, que eu havia travado. A…
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Um projeto sobre cotas sem cotistas
Reli o anteprojeto que escrevi em 2017 sobre a política de cotas no campus onde trabalho, e há uma coisa nele que só se vê olhando os objetivos em bloco. Eram quatro. Estabelecer um paralelo entre as práticas organizacionais antes e depois da implementação. Verificar a correlação entre práticas organizacionais e políticas de ações afirmativas. Identificar mudanças nas práticas organizacionais e culturais na transição. Avaliar as práticas organizacionais e culturais conforme a execução da política. Quatro objetivos. Quatro vezes a expressão práticas organizacionais. Nenhum deles menciona os estudantes. O projeto pergunta o que a política de cotas fez com a instituição. Não pergunta o que ela fez com as pessoas…
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O nome que sumiu
Resumi um livro de Jean-Marc Ela sobre investigação científica e crise da racionalidade. E o resumi inteiro no vocabulário de Boaventura de Sousa Santos, que eu havia resumido no documento anterior. Escrevi que Ela propõe transcender o pensamento abissal. Escrevi que ele advoga por uma ecologia dos saberes. Esses dois conceitos são de Sousa Santos. Ela não os cunhou, e o que ele diz, diz com termos próprios. Foi um vazamento. Eu tinha acabado de trabalhar com um vocabulário e ele ficou ligado quando abri o próximo texto. Acontece. Mas repare no que aconteceu, exatamente. Jean-Marc Ela era camaronês. Padre católico, teólogo e sociólogo, viveu anos no norte de Camarões…
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Qual parte é arbitrária
Foucault propõe uma pergunta de trabalho, e ela é a ferramenta mais útil que eu encontrei em um ano de leituras. Naquilo que nos é apresentado como universal, necessário e obrigatório, qual é a parte singular, contingente e produzida por imposições arbitrárias? Traduzindo para a linguagem de quem trabalha em repartição: isto aqui, que todo mundo trata como se fosse assim mesmo, precisa mesmo ser assim? Passei este ano relendo vinte anos de arquivos meus, e só agora percebo que fiz exatamente isso, sem o nome. Anotei, num diário de campo, que a coordenadora de uma escola abriu quatro portas até encontrar uma sala vazia. Registrei como detalhe de acolhimento.…
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Duzentos anos depois, a mesma pergunta
Em 1784, Kant respondeu a uma pergunta que uma revista alemã havia feito: o que é o esclarecimento? Em 1984, exatos duzentos anos depois, Foucault escreveu um texto com o mesmo título, respondendo à mesma pergunta e ao próprio Kant. Resumi os dois para disciplinas diferentes, e resumi o de Kant duas vezes. Três documentos sobre a mesma pergunta, e em nenhum deles eu escrevi que era a mesma pergunta. As duas respostas são diferentes, e a diferença me diz respeito. Kant responde com um diagnóstico e uma exortação. A menoridade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem direção alheia, e é culpada quando a causa não é…
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Depois do diagnóstico
A crítica mais comum à Dialética do Esclarecimento é que ela não oferece saída. O livro mostra como a razão que prometia libertar virou instrumento de dominação, como a cultura virou indústria, como o indivíduo foi sendo esvaziado. E termina sem programa. Sem proposta. Sem o que fazer na segunda-feira. Isso costuma ser dito como acusação, e não é injusto. Mas é o meu problema também, e é por isso que eu preciso escrever sobre ele. Escrevo uma tese sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação. Descrevo uma jaula. Mostro como decisões que ninguém votou passaram a organizar o dia de estudantes e professores, e como o indicador foi tomando…
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A razão instrumental no púlpito
Adorno e Horkheimer sustentam que a razão que se propôs a libertar acabou virando instrumento de dominação. Que o esclarecimento, ao destruir o mito, produziu um novo mito, feito de cálculo. E que a razão instrumental reduz o conhecimento àquilo que é quantificável e útil para o controle. Resumi esse capítulo para uma disciplina como exposição histórica. Iluminismo, dialética, indústria cultural. E não escrevi a única coisa que eu, especificamente, tinha condições de escrever. Sou ministro do Evangelho. Diante daquela crítica, a posição óbvia da minha tradição seria defensiva: eles atacam a razão que quis destruir a fé, portanto estão do nosso lado sem saber. Não é isso, e a…
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As condições materiais
Resumi para uma disciplina um texto sobre materialismo histórico, e apresentei o núcleo metodológico dele como desenvolvimento teórico do século dezenove. O núcleo é este: para entender o que as pessoas pensam e fazem, olhe primeiro para as condições materiais em que vivem. Não são as ideias que produzem a vida; é a vida que produz as ideias. Escrevi aquilo como quem relata a posição de terceiros. E eu tinha, guardada numa pasta, a demonstração mais completa daquele princípio que eu poderia ter produzido. Passei meses observando uma escola pública de tempo integral, e o que anotei foi isto. Que a coordenadora precisou abrir quatro portas até encontrar uma sala…
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O gamão
Escrevi que Hume tem uma moral provisória. Não tem. Moral provisória é de Descartes, e eu misturei os dois porque tinha acabado de resumir um antes do outro. E a confusão vale a pena examinar, porque as duas respostas ao mesmo problema são bem diferentes, e a de Hume é a verdadeira no meu caso. O problema é este: o que se faz enquanto a dúvida não se resolve? Descartes responde com uma decisão. Antes de derrubar a casa, aluga um alojamento: mantém as leis do país, conserva a religião em que foi criado, age com firmeza mesmo em opiniões incertas. Tudo declarado por escrito, tudo provisório, tudo consciente. É…



























