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As parteiras
Na Viena da década de 1840, o hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. Guarde a segunda frase, porque ela costuma passar em branco quando a história é contada. O setor com menos formação, menos prestígio, menos salário e nenhum acesso à sala de autópsia tinha um quarto dos mortos do setor prestigiado. E aquilo durou anos sem que ninguém investigasse. Não é que os dados estivessem escondidos. Estavam no registro do hospital, e as próprias parturientes conheciam a…
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Por que ninguém lavou as mãos
Hempel abre o capítulo sobre investigação científica com Ignaz Semmelweis, e usa o caso para mostrar como se formula e se testa uma hipótese. Resumi o capítulo para uma disciplina e mencionei a história sem contá-la. Vale contar. Viena, década de 1840. O hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. As mulheres sabiam disso. Imploravam para ser levadas à segunda ala, e algumas preferiam dar à luz na rua a entrar na primeira. Semmelweis foi eliminando hipóteses, uma por…
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Construção não quer dizer invenção
Escrevi, resumindo um livro de filosofia da ciência, que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, e que ela é sempre relativa a um contexto específico. Está fiel ao autor. E, solta desse jeito, é uma frase perigosa. Porque em 1995, quando aquele livro chegou ao Brasil, dizer que a objetividade é construída servia para uma coisa: lembrar que cientistas são gente, que trabalham dentro de instituições, com financiamento, disputa e vocabulário herdado, e que a ciência não desce pronta do céu. Isso continua verdadeiro e continua necessário. Só que hoje a mesma frase circula com outra função. Ela virou a chave universal para descartar…
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A mesma sala, dois relatórios
Fourez sustenta que observação não é registro passivo. É atividade interpretativa, moldada por teorias e conceitos que já estão na cabeça de quem olha. O observador não capta o mundo: ele constrói o que vê, a partir do que trouxe. Li isso e resumi para uma disciplina, como se fosse tese alheia. Mas eu tinha, guardada num arquivo, a demonstração. Em 2022 passei meses observando a mesma turma de sétimo ano, numa escola pública de tempo integral, e escrevi dois relatórios com um semestre de diferença. No primeiro, anotei que a maioria dos alunos não conseguia ficar sentada dez minutos, levantando-se nem que fosse para não fazer nada e sentar…
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Um pastor que tem consciência por mim
Kant explica por que é tão confortável permanecer na menoridade, e dá três exemplos. Se eu tenho um livro que entende por mim, um diretor espiritual que tem consciência por mim, e um médico que decide a minha dieta por mim, então não preciso me esforçar. Não preciso pensar, contanto que possa pagar. Outros se encarregarão do negócio incômodo. O segundo exemplo é o meu ofício. Prego há mais de vinte anos. Todo domingo, alguém senta num banco e recebe de mim uma leitura do mundo já organizada. E boa parte do que se espera de um pastor é exatamente isso: que ele resolva a questão, que diga o que…
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Eles se afastam lentamente
Escrevi uma cena de reencontro. Dois antigos amantes, separados havia muitos anos, se encontram por acaso numa biblioteca, numa noite de chuva. Ele a viu antes de ela vê-lo. Chamou o nome dela. Ela se sobressaltou. E aí, nas seis falas que eu escrevi, eles conversam sobre livros. Ela diz que as histórias ecoam em nossas vidas, como se o passado nunca nos deixasse. Ele responde que nunca deixamos o passado para trás de verdade. Ela diz que cada livro guarda um pedaço do que fomos. A rubrica final é esta: em silêncio, eles compartilham um olhar carregado de memórias antes de se afastarem lentamente, perdidos em seus próprios pensamentos.…
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Deixar o outro ter razão
A coisa mais corajosa que Diderot fez em O Sobrinho de Rameau não foi criticar a sociedade francesa. Foi perder a discussão. O diálogo tem dois participantes. De um lado, o filósofo, que representa o próprio autor: sensato, moral, defensor da virtude. Do outro, o sobrinho: parasita, bajulador profissional, alguém que come na mesa dos ricos e paga divertindo-os, e que admite tudo isso sem constrangimento. O filósofo deveria vencer. É ele quem tem razão pelas regras que qualquer leitor traz de casa. E não vence. O sobrinho é mais vivo, mais engraçado, mais honesto sobre a própria degradação, e várias vezes mais lúcido a respeito de como o mundo…
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Um diálogo sem diálogo
Escrevi um resumo de O Sobrinho de Rameau, de Diderot, e não usei uma única fala. O texto de Diderot é um diálogo. É a forma inteira dele. Duas vozes numa mesa de café, marcadas apenas como Eu e Ele: de um lado o filósofo, do outro o sobrinho do célebre compositor, músico fracassado, parasita profissional, que vive das mesas alheias e sabe disso. Eles conversam, discordam, se interrompem, e o sobrinho, num certo momento, se levanta e imita uma ópera inteira, fazendo com o corpo os instrumentos e as vozes, no meio do estabelecimento, enquanto as pessoas olham. É por essa cena que o livro é lembrado. E eu…
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Dois personagens, um homem
Escrevi uma cena de teatro com dois personagens que se reencontram numa biblioteca, depois de muitos anos. Fiz o perfil dos dois, com idade, aparência, história, personalidade, hobbies, figurino e maquiagem. E só agora, relendo, percebo que dividi a mim mesmo em duas pessoas. Matheus tem trinta e quatro anos. É reservado e introspectivo, o que contrasta com a vivacidade da juventude dele. Foi o garoto de ouro da cidade: bom aluno, atleta, carismático. Depois de uma perda, passou anos tentando preencher o vazio com diversos hobbies e carreiras. Formou-se em engenharia, mas a paixão verdadeira sempre foi a carpintaria, aprendida com o avô. Usa no pulso um relógio de…
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O bloco
Encontrei um projeto de pesquisa que escrevi e em que a mesma citação aparece, palavra por palavra, quatro vezes. Não é uma citação. É um bloco de dezesseis autores entre parênteses: Aristóteles, Comte-Sponville, Dewey, Foucault, Gadamer, Habermas, Jaeger, Kant, MacIntyre, Nietzsche, Platão em duas edições, Rawls, Rousseau, Sartre, Singer e Valls. Dezesseis nomes, colados no fim de um parágrafo, e depois no fim de outro, e depois de outro. E há uma versão reduzida do mesmo bloco, com quatro nomes, que aparece umas doze vezes no documento. Nenhuma dessas citações remete a uma página. Nenhuma sustenta uma afirmação específica. Nenhuma poderia ser conferida, porque não há o que conferir: são…





























