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Quem é nós
Reli o projeto do meu último estágio e reparei numa coisa que eu não tinha visto. Ele começa em primeira pessoa do singular. Pretendo desenvolver. Pretendo trabalhar. Realizarei oficinas. E no meio do quarto parágrafo, sem aviso, vira plural. Planejamos promover. Acreditamos que o teatro possui o poder. Esperamos contribuir. Nos permite unir a prática teatral com a educação, alinhando nossa vocação artística com a responsabilidade social. Não havia equipe. Não havia coautor. Era um estagiário sozinho, escrevendo um projeto sobre oficinas que ele daria sozinho. Quem é nós? Ninguém. É o plural dos documentos, e ele aparece exatamente onde o texto começa a afirmar coisas grandes. Repare na distribuição.…
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Em parceria com uma instituição religiosa
No projeto do meu último estágio de licenciatura, escrevi que pretendia trabalhar em parceria com uma instituição religiosa que promove atividades educativas extracurriculares para crianças em vulnerabilidade social. Instituição religiosa. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos. Conheço aquele lugar por dentro, sei o nome das crianças, sei quem levou cada uma delas e sei quais famílias não têm o que a gente supõe que toda família tem. E escrevi “em parceria com uma instituição religiosa”, como quem descreve um parceiro externo cujo nome ainda está sendo negociado. Não foi disfarce. Foi obediência ao formulário. Projeto de estágio pede campo, e campo, na gramática acadêmica, é um…
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Um pastor lendo Nietzsche
Escrevi, num resumo de disciplina, que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, que varia conforme o contexto cultural e histórico, e que reflete as ideologias e os valores de uma determinada época. Escrevi isso oito vezes, com palavras diferentes, ao longo de duas páginas. E entreguei sem nenhum desconforto. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos numa tradição em que alguém diz, em João 14, que é o caminho, a verdade e a vida. Não é possível sustentar as duas coisas ao mesmo tempo sem que aconteça alguma coisa, e não aconteceu nada, porque eu não reparei. Isso é o que a linguagem acadêmica…
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Pesquisar onde se tem poder
No projeto de doutorado que escrevi sobre ética e formação cidadã, defini o campo assim: estudos de caso nas turmas dos cursos técnicos integrados ao ensino médio do Instituto Federal do Espírito Santo, com observação participante, entrevistas semiestruturadas com servidores e estudantes, e análise documental. É o lugar onde eu trabalho. E não trabalho lá de qualquer jeito. Coordeno a assistência estudantil do campus. É pelo meu setor que passam os auxílios, os encaminhamentos, os atendimentos e boa parte das decisões que afetam a permanência de um estudante na instituição. Escrevi que entrevistaria estudantes. Um estudante entrevistado por mim não está diante de um pesquisador. Está diante do coordenador do…
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Uma sala sem ninguém dentro
Precisei projetar um cenário para uma peça, num trabalho de licenciatura em Teatro. Tinha liberdade total: podia inventar qualquer lugar. Inventei uma biblioteca antiga, numa noite de chuva. Descrevi tudo. Ao fundo, uma grande janela de vidro transparente, através da qual se vê o outro lado. Nas laterais, estantes de madeira repletas de livros antigos, subindo quase até o topo do palco, com luzes turvas. Ao centro, uma janela semiaberta, com árvores balançando ao vento e um raio de vez em quando. No meio, uma grande mesa de madeira coberta de livros abertos. À esquerda, um sofá. Sobre a mesa, um candelabro com vela, uma xícara e uma garrafa de…
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Orvalhos de conteúdo
Escrevi, sobre o professor que eu observava, em meu estágio obrigatório do curso de Licenciatura em Teatro, que ele havia entrado no jogo da turma. Que dançava conforme a música. Que não impunha, e que tentava conciliar alguns orvalhos de conteúdo com uma torrente de interações discentes. Reli isso quatro anos depois e reconheço que aquela frase é a coisa mais precisa que eu escrevi em todo o estágio. Orvalho contra torrente. Ele tinha gotas para oferecer e a sala tinha enxurrada. O ciclo era sempre o mesmo, e eu o anotei com a paciência de quem observa por semanas. Ele entrava, ligava o computador, projetava slides para serem copiados.…
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A defesa que entrega o jogo
Num ensaio sobre teatro na educação inclusiva, defendi o teatro assim: Que ele desenvolve habilidades comunicativas, sociais e emocionais. Que promove empatia. Que constrói autoconfiança e autonomia. Que estimula a criatividade. Que contribui para uma comunidade escolar mais tolerante. Tudo isso é verdade, e cada afirmação daquelas tem pesquisa por trás. E, somadas, elas entregam o jogo. Porque nenhuma delas fala do teatro. Todas falam do que o teatro produz depois de terminado. Repare no que a lista faz: ela justifica a existência de uma arte na escola mostrando que ela serve para outra coisa. Comunicação, socialização, autoestima, tolerância. Nenhuma dessas coisas é teatro. São efeitos colaterais desejáveis. E quando…
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O livro que ficou na bibliografia
Escrevi um ensaio sobre educação inclusiva e teatro. Doze páginas, dez referências, e uma tese: que o teatro é uma metodologia inclusiva capaz de promover o desenvolvimento de alunos com deficiência. Na bibliografia, no fim de tudo, há uma última entrada que não aparece nenhuma vez no corpo do texto. É um livro chamado A cena contaminada: um teatro das disfunções. Eu o listei e não o abri. E o título sozinho já fazia a pergunta que o meu ensaio inteiro não fez. Porque o meu ensaio parte de um pressuposto que parece generoso e não é. Ele supõe que existe o teatro, que é uma coisa pronta, e que…
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Quando a técnica esconde
Num ensaio sobre cinema, registrei uma objeção que alguns críticos fazem ao plano-sequência: que a proeza técnica pode servir para encobrir a falta de conteúdo do roteiro, produzindo uma ilusão de complexidade e sofisticação. Escrevi isso num parágrafo e voltei a elogiar o filme no seguinte. Mas a objeção é séria, e ela não é sobre cinema. Existe um tipo de virtuosismo que funciona como distração. A câmera não corta durante vinte minutos, e o espectador fica tão ocupado admirando o feito que não pergunta se aquelas vinte cenas tinham o que dizer. A dificuldade da execução passa a valer como qualidade da obra. É um truque antigo e não…
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Pontos fracos em seu percurso
O campo do formulário chamava-se assim: pontos fracos em seu percurso. Era um relatório de autoavaliação de estágio do curso de Teatro, dos que toda licenciatura exige. O aluno descreve o que deu errado, a coordenação lê, arquiva, e o semestre se encerra. Eu respondi com uma lista de marcadores. O retorno presencial depois da pandemia, com todas as demandas que ele trouxe de uma vez. O acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor e não foram repostos. Problemas de saúde física e mental. Falecimento de parentes. Dívidas que eu não estava conseguindo pagar. Escrevi tudo isso com marcadores, um embaixo do outro, porque era o…



























