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As três matrizes
Num trabalho da licenciatura, escrevi que a Base Nacional Comum Curricular apresenta a arte como área que dá acesso às matrizes culturais brasileiras, e que essas matrizes são três: a indígena, a africana e a portuguesa. E escrevi a parte que importa: Não se deve ficar apenas no passado. É preciso relacionar com o presente e identificar as formas de expressão dessas matrizes na contemporaneidade. Está certo, e é a diferença entre ensinar cultura e embalsamar cultura. A escola brasileira sabe falar das matrizes no pretérito. Indígena aparece no descobrimento, africano aparece na escravidão, português aparece na colonização, e as três ficam trancadas no século dezenove, como se tivessem produzido…
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O nome que falta
Num trabalho de licenciatura, discorri sobre interseccionalidade ao longo de várias páginas, apoiado numa única autora brasileira que resumia o conceito. Escrevi que a interseccionalidade é uma ferramenta criada para identificar o racismo. Está pela metade, e a metade que falta é justamente a que dá nome à coisa. O termo foi cunhado em 1989 por Kimberlé Crenshaw, jurista negra estadunidense, num artigo sobre um caso concreto. Trabalhadoras negras processaram uma montadora por discriminação e perderam, porque o tribunal analisou o caso em dois eixos separados. Para discriminação racial, olhou os homens negros da empresa, que estavam empregados. Para discriminação de gênero, olhou as mulheres brancas, que também estavam. E…
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A cura pela fala
Estou estudando psicanálise, e a primeira coisa que o material diz é isto: Os seres humanos tendem a falar sobre seus problemas. É natural procurar alguém de confiança quando algo nos aflige. Às vezes pedimos conselho, mas muitas vezes queremos apenas nos sentir ouvidos e compreendidos. E a terapia acontece fazendo com que a pessoa fale. Parei nessa frase por um tempo. Porque a disciplina inteira, desde Freud, se apoia numa premissa que a minha vida passou quarenta anos contrariando: a de que as pessoas falam. Eu não falo. Não falei à menina de treze anos, diante do espelho, que ela estava bonita. Não falei às moças do culto, durante…
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Velocidades diferentes
Numa disciplina de laboratório de poéticas, construí duas performances. Uma se chamava Manifesto. A outra, Inventário. E, no memorial que escrevi depois, registrei uma descoberta que não era sobre teatro. Escrevi que o simbolismo do Manifesto estava, talvez, na falta de conexão imediata entre o falado e o movimento. Que nem sempre a fala consegue, ou pretende, se mover na mesma velocidade ou na mesma direção da ação. E completei, no parágrafo seguinte: o que é dito é uma mensagem, mas o que não é dito também é uma mensagem. O que é movimentado é uma mensagem, e também o que não é. Escrevi isso como observação técnica sobre construção…
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A metodologia comporta o desejo
Num relatório de estágio, entre uma consideração sobre jogos teatrais e outra sobre cultura local, eu escrevi a tese central de tudo o que viria a pesquisar depois. Está assim: A metodologia é uma invenção que cria limites para que o aluno possa chegar onde o professor deseja que ele chegue. A metodologia comporta dentro de si mesma o desejo. Ela em si é crua e seca, mas há um sentimento pulsante dentro dela, pois deseja levar a experiência a um determinado lugar, em busca de um resultado já conhecido. E completei, na sequência: a metodologia não permite a construção do novo, apenas uma inovação. Permite aperfeiçoamento, mas não criação.…
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Brincar dando aula
A peça do dia 13 de dezembro não aconteceu. As aulas aconteceram. Depois de todos os entraves, das assinaturas que não vinham, das quarenta e cinco horas exigidas e das dez oferecidas, do trimestre que não batia com o semestre e da negociação para entrar dentro da unidade de dança, eu finalmente entrei numa sala de aula como professor de teatro. E foi assim que registrei, no relatório final: Foi possível brincar dando aula e dar aula brincando. É a melhor frase de tudo o que escrevi naquele ano. E é a única que não descreve um problema. Trabalhei com os jogos teatrais de Viola Spolin, adaptados. E, pela primeira…
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Além do utilitário
Num comentário de disciplina, escrito às pressas depois de assistir a um vídeo de Ana Mae Barbosa, eu formulei sem perceber o problema que viria a estudar pelo resto da vida. A frase está lá, no fim do parágrafo, precedida de dois pontos: Este é o desafio do meu estágio: levar o aluno a reconhecer a beleza da arte, além da perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente. A perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente. Eu tinha trinta e sete anos, estava no meio de uma licenciatura a distância e comentava um vídeo obrigatório. E nomeei, em oito palavras, o adversário. Não era uma abstração. Eu tinha acabado de encontrá-lo, em…
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Contaminação
Existe uma palavra que a pedagogia das artes usa com carinho e que eu já não consigo mais ouvir do mesmo jeito. Contaminação. No vocabulário da arte-educação e do teatro, contaminar é bom. Significa a passagem de uma linguagem para dentro de outra, a mistura fértil, o transbordamento que impede que cada disciplina fique trancada no próprio quadrado. Uma aula de dança contaminada de teatro. Um texto contaminado de música. Um corpo contaminado pelo espaço em que está. A palavra foi escolhida justamente por ser transgressora. Ela vinha da biologia, do campo da doença, e era trazida para a arte de propósito, como quem rouba um termo do inimigo e…
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A assinatura
Quando terminei o primeiro estágio, continuei frequentando as aulas do professor de Artes. Não era obrigado. Fiz de propósito, para não perder o contato, para que quando chegasse a hora do estágio dois eu já tivesse vínculo com a escola e não precisasse recomeçar as articulações do zero. Foi uma estratégia razoável, e ela não funcionou. A formalização do segundo estágio foi pior que a do primeiro. Liguei várias vezes para a direção. Mandei mensagem pelo aplicativo. Não obtinha resposta. Quando obtinha, a resposta era que iriam assinar. E não assinavam. E aí veio o pior. O professor me pediu que eu não fosse mais às aulas, até que o…
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Quarenta e cinco horas
A disciplina de Estágio Supervisionado 2 exigia quarenta e cinco horas de regência. O professor da escola me ofereceu duas aulas por turma. Eram seis turmas. Duas aulas de cinquenta minutos cada. Seiscentos minutos. Dez horas. Quarenta e cinco exigidas. Dez disponíveis. Anotei a diferença no relatório e escrevi, na frase seguinte, a única coisa que dava para escrever: considerando toda a dificuldade em se encontrar um estágio, aceitei a proposta. Aceitei porque a alternativa era não ter estágio nenhum. Eu havia procurado várias escolas antes. Várias me recusaram. Aquela foi a última que procurei e a única que me acolheu, e eu já tinha atravessado, no semestre anterior, um…
























