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Realizar
Anotei, no fim daquele caderno de observação, uma frase sobre o professor que eu acompanhava: Ele não trabalhava com o conceito de certo e errado. Trabalhava com o realizar as atividades. E anotei também como isso funcionava na prática: ele passava de mesa em mesa atribuindo pontos a quem estivesse desenvolvendo a tarefa. Na época eu li aquilo como escolha pedagógica, e é uma escolha defensável. Em Artes, o certo e o errado são categorias frágeis. Um traço não é falso. Um grafismo não erra a resposta. Avaliar execução em vez de acerto é razoável, e há tradição respeitável defendendo exatamente isso. Hoje eu vejo a outra metade. Aquela turma…
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Ilhas afastadas
Naquela aula na biblioteca, com as mesas redondas e o professor passando de grupo em grupo, eu vi duas pessoas que ninguém viu. Dois alunos sentaram-se isoladamente. Ninguém interagia com eles. Eles não interagiam entre si. O professor não interagiu com eles. Escrevi no diário: eram ilhas afastadas. E acrescentei o detalhe que torna aquilo insuportável: eles fizeram os exercícios propostos. Em momento nenhum solicitaram a presença do professor nem a de outro aluno. Fizeram a tarefa. Corretamente. Sozinhos. Em silêncio. E ninguém precisou olhar para eles nem uma vez. Existe um tipo de invisibilidade que a escola sabe enxergar. É a do aluno que atrapalha, que fala alto, que…
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7º Ano 1
Uma coisa pequena me chamou a atenção logo no começo do estágio estágio supervisionado em Teatro, e eu a registrei no diário sem saber por que estava registrando. Na maioria das escolas, a turma se chama 7º Ano A. Um número para o ano, uma letra para a turma. Naquela escola, não. Chama-se 7º Ano 1. Dois numerais. Um para o ano, outro para a turma. Escrevi que aquilo me chamou atenção, e passei adiante. Não tinha nada a acrescentar, porque não tinha instrumento nenhum para pensar aquilo. Era só uma estranheza de nomenclatura, do tipo que a gente nota e esquece. Hoje, eu sei exatamente por que aquilo me…
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A vista que ninguém olha
A sala de Artes na escola onde fiz o estágio supervisionado em Teatro é boa. Tem televisão grande, quadro branco, aparelho de som, ar-condicionado, ventilador, bancadas próprias para desenho, pias para lavar material e uma sala anexa que serve de estoque. As paredes são pintadas com desenhos de vários estilos, feitos para conversar com adolescentes. Anotei no diário que o ambiente era limpo, arejado, criativo e inspirador, e que provocava uma ânsia de criar. E anotei outra coisa, numa frase que passou despercebida até para mim. A sala tem uma vista privilegiada, que percebi não ser apreciada nem pelo professor nem pelos alunos. Do outro lado daquela janela está a…
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Sessenta cores
O professor me contou, durante o estágio na Escola Viva em São Pedro, que havia comprado uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta cores para um aluno. O menino sonhava com aquela caixa. A família não podia comprar. Então o professor comprou. Anotei o episódio no diário e escrevi, logo em seguida, que ele havia se envolvido emocional e economicamente na realidade social do aluno. E acrescentei uma ressalva: que essa proximidade pode ser boa ou ruim, dependendo de como as relações se desenvolvem. É uma frase correta. É o que se ensina em qualquer formação sobre vínculo profissional. É o que eu diria hoje a um…
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Descaracterizado
No primeiro dia em que acompanhei a turma em meu estágio supervisionado, o professor precisou se ausentar e uma professora de outra disciplina ficou com os alunos. A tarefa era copiar slides sobre grafismo. Ninguém copiou. Passaram a aula interagindo entre si. E eu anotei três frases no meu diário. Percebi que um aluno estava descaracterizado. Ele não estava de uniforme. Percebi que ninguém ligava para ele, e que ele fazia o que queria. Foi só isso. Escrevi as três frases e passei para o item seguinte. Levei quatro anos para reparar na palavra que eu havia usado. Descaracterizado é o termo administrativo. É assim que se diz, no vocabulário…
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Parte da minha família
Um questionário de disciplina perguntou se eu tinha alguma lembrança de participação em festa, dança ou brincadeira que pudesse ser entendida como cultura popular. Respondi que sim: os festejos juninos. E escrevi assim: Mesmo quando era pequeno, eu e parte de minha família participávamos do arraial do bairro onde morava. Parte da minha família. Levei quatro anos para reparar nessas três palavras, e elas dizem mais do que o resto da resposta inteira. Porque a pergunta seguinte do questionário quis saber se aquelas manifestações estavam ligadas ao calendário cívico, religioso ou festivo da cidade. E eu respondi que não. Duas vezes, no mesmo parágrafo, com a gramática tropeçando nas duas.…
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As linhas do meu rosto
Para preparar um monólogo, precisei estudar maquiagem teatral. E o exercício começava assim: observar as linhas do ator. No caso, eu mesmo. Então sentei diante do espelho e olhei o meu rosto com atenção técnica, procurando onde ele tem estrutura. As laterais da testa. As maçãs. A linha do maxilar. A curvatura da testa. Os cantos dos olhos. Depois apliquei uma base do tom da minha pele, com uma esponja de louça mesmo, porque o orçamento não dava para mais. Sombra clara nas linhas naturais. Sombra escura para dar dimensão ao nariz. Traços pretos realçando o contorno. Lápis rente aos cílios e às sobrancelhas para destacar o olhar. Fiz o…
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A oficina que enlata
Assisti a uma entrevista com Mestre Calú, mamulengueiro, e escrevi uma resenha. No meio dela, sem perceber que estava fazendo uma objeção séria, escrevi isto: A oficina é o lugar apropriado para transmitir essa responsabilidade. Porém, a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva. É um tempo programado especialmente para aquilo, entrando, querendo ou não, numa matriz curricular. E desse modo a arte torna-se um pouco enlatada. Enlatada. Foi a palavra que me veio, e ela está certa. O mamulengo não se aprendia em oficina. Aprendia-se olhando, no engenho, depois de um dia inteiro de trabalho braçal, com um mestre que brincava a noite toda e um menino ao lado…
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Sentido único
Escolhi, numa atividade de disciplina, refletir sobre a palavra sentido. Escolhi porque ela me remetia ao verbo sentir. Escrevi que, quando uma coisa faz sentido, é porque ela consegue mexer com a gente, e que esse mexer não é biológico nem físico: é um sacudir das estruturas internas. Algo faz sentido quando nos move. Move a estrutura. Abala. E depois passei o resto do texto descrevendo, sem perceber, o terceiro significado da palavra. Porque sentido, em português, quer dizer três coisas. Quer dizer significado, como em fazer sentido. Quer dizer sensação, como nos cinco sentidos. E quer dizer direção, como em sentido único, mão e contramão, sentido horário, siga em…




























