• Educação & Cuidado

    Sapatilha de ponta

    Em um projeto de curso de dança que desenvolvi, a aula cinco era sobre ballet clássico. Escrevi que exploraríamos os princípios do ballet, como postura, alinhamento e técnicas de ponta. E que faríamos exercícios de barra e de centro, desenvolvendo a técnica e a graciosidade do movimento. Sessenta minutos. Turma de sexto ano. Escola pública. Trabalho de ponta é uma das coisas mais exigentes que existem na dança. Exige anos de preparo anterior, força de tornozelo construída aos poucos, e maturação óssea que nem toda criança de onze anos alcançou. Uma professora de ballet responsável leva anos decidindo quando uma aluna pode subir na ponta, e às vezes decide que…

  • Educação & Cuidado

    Um continente numa aula

    Escrevi um projeto de curso de dança para uma turma de sexto ano. Dez aulas, uma por semana, de junho a agosto. A aula quatro chamava-se “danças folclóricas do mundo”. E o conteúdo previsto era este: aprendizado de dois movimentos típicos e dos aspectos culturais que envolvem a Hula e as danças africanas. Hula e danças africanas. Uma coisa é a dança de um arquipélago específico, o Havaí, com nome próprio e tradição rastreável. A outra é um continente com cinquenta e quatro países. Coloquei as duas lado a lado, como se fossem itens equivalentes de uma lista, e reservei sessenta minutos para as duas. Sou coordenador adjunto do núcleo…

  • Pólis & Gestão

    A caneta que escreve o valor

    Existe uma violência silenciosa que não se traduz em golpes, mas em insinuações e na presença sufocante de quem habita a obsessão pelo domínio. É a figura que se vale da hierarquia de crachá para projetar uma sombra sobre o outro, por meio de um olhar que tenta desautorizar e de um esmagamento que nunca precisa tocar ninguém. Não é apenas ocupação de espaço: é a intenção de punir a autenticidade alheia, e o incômodo com aquilo que não se consegue controlar. Nesse tribunal das aparências, características deixam de ser características e viram alvos. A cor da pele e a fé de alguém passam a ser lidas como demérito por…

  • Pólis & Gestão

    Andaime

    Ser escolhido como o provisório pode soar como uma sentença de insignificância, uma posição que sugere substituibilidade e uma espera amarga até que o definitivo ocupe o lugar. Mas essa leitura ignora a profundidade do gesto. Há uma sabedoria em aceitar a interinidade, porque escolhas nunca são neutras. Ser o provisório é revelar uma força que o permanente raramente exige: a coragem de ser a resposta quando o futuro ainda é uma neblina. Assumir esse papel significa que, no momento crítico, você se apresentou como a solução para um vazio que não podia esperar. É um ato de resistência contra a neurose da permanência, um sinal de que, mesmo sem…

  • Filosofia & Teologia

    Levantou-se para fugir

    A ordem divina em Jonas 1.2 é mais que uma instrução de postura. Deus convoca o profeta para a urgência de Nínive, e o clamor exigido não é apenas juízo: é convite ao arrependimento diante de uma maldade que subiu. Em Sua santidade, Deus não é observador passivo. Vê a corrupção como ferida viva, e ainda assim prefere o envio do profeta à execução da sentença. Contudo, Jonas responde com obediência cínica. Ele se levanta, mas para fugir. É a meia obediência, que nada mais é do que rebeldia fantasiada de movimento. E aqui o capítulo revela a sua arquitetura. O homem que recebeu ordem de se levantar passa o…

  • Filosofia & Teologia

    Onde as palavras foram gastas

    Naquele trabalho sobre racismo no futebol, eu defendi duas teses. A primeira: que o racismo é aprendido, que a torcedora não nasceu racista, que a sociedade formou nela aquele modo de pensar e depois a puniu por ele. A segunda: que a punição extrajudicial foi desproporcional, que ameaça de morte e ataque à casa de alguém também são crime, e que não se pune crime com crime. Continuo achando que as duas estão certas. Racismo é aprendido, e culpar exclusivamente o indivíduo isola o problema num único rosto e absolve a estrutura que o produziu. Linchamento moral é violência, e as consequências que ele produz não são justiça. Nada disso…

  • Educação & Cuidado

    O nome do goleiro

    Escrevi um trabalho de sociologia sobre um caso de racismo no futebol. Uma torcedora do Grêmio foi flagrada pelas câmeras, durante um jogo contra o Santos, chamando o goleiro adversário de macaco. O caso foi identificado por leitura labial, virou notícia nacional e internacional, e o clube foi eliminado da competição. Reli o trabalho agora. O nome do goleiro não aparece uma única vez. Ele é chamado quatro vezes de “o goleiro santista”. O nome dele é Mário Lúcio Duarte Costa. No futebol, todo mundo o conhece como Aranha. Naquele trabalho, ele não tem nome, não tem carreira, não tem histórico, não tem fala. Não há uma linha sobre o…

  • Filosofia & Teologia

    A renúncia invisível

    A jornada da fé nem sempre é suave. Às vezes as lutas são tão reais quanto uma enxaqueca que beira a náusea, fruto, confesso, de um vício assumido em café e das demandas burocráticas que nos cercam. E, entre uma dor de cabeça e uma ligação administrativa, permanece a convocação: não abandonar a Palavra. Para muitos, o jejum é o sacrifício visível. O estudo teológico é a renúncia invisível. Aprofundar-se nas Escrituras exige o abandono do comodismo e da preguiça intelectual, e há um preço em tempo e foco para quem deseja crescer em Cristo. O ponto de partida está numa distinção: a Trindade imanente e a Trindade econômica. A…

  • Filosofia & Teologia

    Talismãs

    Houve um tempo em que a esperança parecia caber em uma trama de algodão egípcio. Olhar para aquela camisa branca pendurada era, para mim, como contemplar um estandarte de guerra, uma armadura tecida com a promessa de que eu, finalmente, seria alguém digno de ser amado. É ela, pensei, é ela que me fará conquistá-la. Naquela época, eu não comprava roupas. Eu comprava talismãs para esconder a minha própria nudez existencial. O preço daquela ilusão foi obsceno. Uma transação que ignorava a lógica e o salário, alimentando-se apenas da minha urgência em pertencer. O relógio suíço, que cruzou o oceano como se trouxesse consigo uma nova era, ficou retido na…

  • Artes & Narrativas

    Fome de ser

    Existe em mim uma fome de ser, uma força oculta que vibra na fundação da existência. Sinto, de forma quase visceral, a intuição de que não estou completo, e é essa consciência da falta que me obriga a interrogar o mundo com uma pergunta: qual é, afinal, o meu lugar? Não procuro a resposta em um crachá, em um cargo ou em um rótulo transitório. O que me move é a busca por uma identidade que me defina na essência. Vivemos, no entanto, em uma engrenagem que detesta o infinito. A sociedade limita o sentido da existência a funções utilitárias, como se a complexidade da alma pudesse ser enjaulada em…