Educação & Cuidado

O nome do goleiro

Escrevi um trabalho de sociologia sobre um caso de racismo no futebol.

Uma torcedora do Grêmio foi flagrada pelas câmeras, durante um jogo contra o Santos, chamando o goleiro adversário de macaco. O caso foi identificado por leitura labial, virou notícia nacional e internacional, e o clube foi eliminado da competição.

Reli o trabalho agora.

O nome do goleiro não aparece uma única vez.

Ele é chamado quatro vezes de “o goleiro santista”.

O nome dele é Mário Lúcio Duarte Costa. No futebol, todo mundo o conhece como Aranha.

Naquele trabalho, ele não tem nome, não tem carreira, não tem histórico, não tem fala. Não há uma linha sobre o que ele disse, sobre o que aconteceu com ele depois, sobre como aquilo afetou a vida dele.

Ele existe no meu texto apenas como o destinatário do insulto.

E a torcedora tem três parágrafos.

Escrevi que ela perdeu o emprego, perdeu a vida social, sofreu ameaças de morte e, nas minhas palavras, perdeu a dignidade. Escrevi que ela foi humilhada de várias formas. Escrevi que o racismo não nasceu nela, que a sociedade a formou assim e depois a puniu.

Tudo isso pode ser discutido, e voltarei a isso.

O que me interessa aqui é a contabilidade.

Num trabalho sobre uma agressão racista, o agressor recebeu três parágrafos de análise psicológica e social, com nome de sofrimento e detalhe de consequência.

E o agredido recebeu um substantivo com adjetivo pátrio.

Eu com vinte e nove anos pensando o racismo.

Um homem foi chamado de macaco diante de um estádio e de um país inteiro.

E, no trabalho que eu escrevi sobre o assunto, ele não tem nome.

Ele se chama Aranha.

Registro aqui, porque é o mínimo.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *