Onde as palavras foram gastas
Naquele trabalho sobre racismo no futebol, eu defendi duas teses.
A primeira: que o racismo é aprendido, que a torcedora não nasceu racista, que a sociedade formou nela aquele modo de pensar e depois a puniu por ele.
A segunda: que a punição extrajudicial foi desproporcional, que ameaça de morte e ataque à casa de alguém também são crime, e que não se pune crime com crime.
Continuo achando que as duas estão certas.
Racismo é aprendido, e culpar exclusivamente o indivíduo isola o problema num único rosto e absolve a estrutura que o produziu. Linchamento moral é violência, e as consequências que ele produz não são justiça.
Nada disso é falso.
E, ainda assim, o trabalho está errado.
Porque um texto não argumenta apenas pelo que suas frases afirmam. Ele argumenta também pela distribuição.
Naquele trabalho, contei quantas linhas foram para cada coisa.
A formação social do racismo na torcedora, e o sofrimento dela depois da exposição: três parágrafos.
O homem que foi chamado de macaco: uma expressão, repetida quatro vezes, sem nome.
E a única linha dedicada a ele diz que é inadmissível haver racismo num esporte popular cuja maioria dos jogadores é afrodescendente.
É uma frase sobre uma categoria, não sobre uma pessoa.
Não escrevi nenhuma mentira. Mas quem lê aquele texto sai dele pensando na mulher, no que ela perdeu e no excesso que sofreu.
Sai sem saber quem era ele.
E isso é o argumento verdadeiro do trabalho, mesmo que nenhuma frase o declare.
E a lição é chata e não sai em manual de metodologia.
Antes de entregar um texto, conte as linhas. Veja quanto espaço recebeu cada personagem, cada tese, cada lado.
Se a proporção não corresponde ao que você diz defender, é a proporção que o leitor vai acreditar.
Ele lê as suas frases uma vez.
O espaço que você deu a cada uma ele sente do começo ao fim.


