Filosofia & Teologia

Onde as palavras foram gastas

Naquele trabalho sobre racismo no futebol, eu defendi duas teses.

A primeira: que o racismo é aprendido, que a torcedora não nasceu racista, que a sociedade formou nela aquele modo de pensar e depois a puniu por ele.

A segunda: que a punição extrajudicial foi desproporcional, que ameaça de morte e ataque à casa de alguém também são crime, e que não se pune crime com crime.

Continuo achando que as duas estão certas.

Racismo é aprendido, e culpar exclusivamente o indivíduo isola o problema num único rosto e absolve a estrutura que o produziu. Linchamento moral é violência, e as consequências que ele produz não são justiça.

Nada disso é falso.

E, ainda assim, o trabalho está errado.

Porque um texto não argumenta apenas pelo que suas frases afirmam. Ele argumenta também pela distribuição.

Naquele trabalho, contei quantas linhas foram para cada coisa.

A formação social do racismo na torcedora, e o sofrimento dela depois da exposição: três parágrafos.

O homem que foi chamado de macaco: uma expressão, repetida quatro vezes, sem nome.

E a única linha dedicada a ele diz que é inadmissível haver racismo num esporte popular cuja maioria dos jogadores é afrodescendente.

É uma frase sobre uma categoria, não sobre uma pessoa.

Não escrevi nenhuma mentira. Mas quem lê aquele texto sai dele pensando na mulher, no que ela perdeu e no excesso que sofreu.

Sai sem saber quem era ele.

E isso é o argumento verdadeiro do trabalho, mesmo que nenhuma frase o declare.

E a lição é chata e não sai em manual de metodologia.

Antes de entregar um texto, conte as linhas. Veja quanto espaço recebeu cada personagem, cada tese, cada lado.

Se a proporção não corresponde ao que você diz defender, é a proporção que o leitor vai acreditar.

Ele lê as suas frases uma vez.

O espaço que você deu a cada uma ele sente do começo ao fim.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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