Pólis & Gestão

A assinatura

Quando terminei o primeiro estágio, continuei frequentando as aulas do professor de Artes.

Não era obrigado. Fiz de propósito, para não perder o contato, para que quando chegasse a hora do estágio dois eu já tivesse vínculo com a escola e não precisasse recomeçar as articulações do zero.

Foi uma estratégia razoável, e ela não funcionou.

A formalização do segundo estágio foi pior que a do primeiro. Liguei várias vezes para a direção. Mandei mensagem pelo aplicativo. Não obtinha resposta. Quando obtinha, a resposta era que iriam assinar. E não assinavam.

E aí veio o pior.

O professor me pediu que eu não fosse mais às aulas, até que o novo contrato fosse formalizado.

Escrevi isso no relatório numa frase curta, sem adjetivo, no meio de um parágrafo sobre entraves burocráticos. E terminei o parágrafo informando que, naquele momento, eu ainda estava com o processo pendente, faltando a assinatura do professor e da direção.

Ou seja: eu escrevia um relatório sobre um estágio ao qual eu estava proibido de comparecer, enquanto esperava a assinatura das mesmas duas pessoas que me pediram para não ir.

Não havia má vontade. Provavelmente ninguém naquela escola pensou duas vezes no assunto. O pedido para eu não frequentar até a formalização é, inclusive, correto do ponto de vista da responsabilidade institucional: sem contrato, um estranho circulando entre menores é um risco que ninguém deve assumir.

A regra está certa.

O que ninguém calcula é o tempo que a regra leva para se cumprir, e quem paga esse tempo.

Enquanto os papéis não andavam, o calendário andava. As aulas aconteciam sem mim. As turmas seguiam. O trimestre avançava. E o meu prazo de disciplina, que terminava em setembro, corria igual.

A burocracia não pausa o relógio de ninguém. Ela apenas retira você do lugar onde as coisas acontecem, e continua contando.

Eu já tinha visto esse mecanismo em outro contexto. Trabalho em instituição pública há quase vinte anos e instruo processos. Sei quanto tempo leva uma assinatura, sei o que acontece com um pedido que fica parado numa mesa, e sei que quase nunca é sabotagem: é fila.

O que eu não sabia, até 2022, era como se sente quem está do outro lado da fila.

Do lado de dentro, um processo pendente é uma linha num sistema.

Do lado de fora, é um homem esperando permissão para entrar numa escola onde ele já ia todos os dias.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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