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O corredor
Naquela escola, todos me trataram bem. O vigilante do portão me cumprimentou e abriu para o carro entrar. A secretária me atendeu ao telefone, não sabia responder e me orientou a ligar de novo vinte minutos depois. A coordenadora marcou entrevista para a mesma tarde. Anotei tudo isso no diário e usei a palavra cordial quatro vezes em duas páginas. Menos uma vez. Num dia de aula, cheguei e fui procurar o professor de Artes. Entrei no corredor que dá na sala dos professores. E fui abordado por um professor da escola, de maneira hostil, que me questionou, com pouca educação, o que eu estava fazendo naquela área. Expliquei que…
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O prédio que era da medicina
A Escola Viva de São Pedro funciona nas antigas instalações do Campus II da FAESA. A FAESA foi a maior faculdade privada do Espírito Santo, e o Campus II abrigava os cursos da área da saúde. Quando a instituição desocupou o espaço, o Estado aproveitou parte dele para instalar uma escola pública de tempo integral. Anotei isso no meu diário de estágio, em 2022, dentro de um item que eu havia chamado de observações estéticas. Escrevi que as instalações eram dignas de espaço de ensino superior. Escrevi sobre a vista panorâmica para a baía de Vitória, sobre a circulação de ar, sobre o amplo estacionamento, a quadra poliesportiva e o…
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Tenho como provar
Naquele relatório de estágio, depois de listar tudo o que havia dado errado no semestre, eu escrevi esta frase: Tenho como provar os contatos que fiz e algumas negativas de escolas. Ninguém tinha me acusado de nada. O formulário não pedia comprovação. Era um campo de autoavaliação, aberto, em que o aluno relata o próprio percurso. E ainda assim eu ofereci provas. Havia motivo. Eu precisava de uma escola para estagiar e não conseguia. Procurei várias, e várias me recusaram. Consegui uma no limite do prazo. Não recebi do polo nenhum apoio prático de intermediação, e o registro disso também está no relatório, escrito com o cuidado de quem mede…
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Travei
Encontrei, revisando papéis antigos, o relatório de autoavaliação que entreguei em maio de 2022, no estágio supervisionado da licenciatura em Teatro. Num dos campos, o formulário perguntava quais estratégias eu havia usado para realizar as atividades. Respondi que li os textos propostos e assisti aos vídeos. E então escrevi, em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico: TRAVEI. Foi a única palavra do relatório inteiro que eu escrevi assim. Não escolhi o caixa alta por ênfase. Escolhi porque era a palavra exata e porque nenhuma outra servia. Eu havia feito tudo o que antecede a tarefa. Tinha o material, tinha lido, tinha visto. E na hora de produzir, não…
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Por que Birdman
Numa disciplina que pedia um ensaio sobre teatro e cinema, eu podia escolher qualquer filme. Escolhi Birdman. O filme é de Alejandro González Iñárritu, de 2014, e conta a história de Riggan Thomson, vivido por Michael Keaton. Riggan foi um ator famoso por interpretar um super-herói décadas antes, e agora tenta provar que é artista de verdade montando uma peça na Broadway, adaptada de um conto de Raymond Carver. Ele quer ser levado a sério. Passa o filme inteiro sendo perseguido por uma voz interna, a do personagem que o tornou famoso, que repete que ele é irrelevante, que ninguém liga, que aquilo tudo é patético. E, na cena mais…
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A noite toda
Mestre Calú conta, numa entrevista, que não se brincava mamulengo por duas horas. Brincava-se a noite toda. Cinco horas ou mais. E ele sublinha, como quem constata uma perda, que meia hora é o que virou, e que meia hora foge da normalidade da brincadeira. Escrevi na minha resenha que isso é quase inconcebível para a nossa sociedade urbana. E é. Mas levei quatro anos para entender por que era possível antes. Não era resistência. Era estrutura. Ninguém aguenta cinco horas de espetáculo. Ninguém nunca aguentou. O que permite atravessar a noite inteira é não estar assistindo. Foi o que escrevi sem desenvolver: não se assiste ao teatro de mamulengo,…
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A gramática e o poeta
Numa resenha sobre teatro de bonecos, escrevi uma analogia que corrige uma coisa que venho dizendo há dez anos. A técnica, no teatro de formas animadas, funciona como as regras da gramática funcionam para o poeta. O poeta precisa dominar a gramática para conseguir o que pretende. Mas se ele não tem o que dizer, o instrumento gramatical fica estático. E completei: a gramática é seca e rígida, mas quando o espírito se manifesta dentro dela, a dinâmica traz singeleza e leveza. Isso contradiz, ou pelo menos complica, quase tudo o que eu venho escrevendo sobre forma. Em 2013 escrevi que o perigo dos modelos de gestão é a forma…
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O boneco está na sala
Escrevi, num comentário de disciplina sobre teatro de formas animadas, uma frase que continuo achando a coisa mais precisa que já disse sobre arte: O objetivo não é tirar as pessoas da realidade e transportá-las para um mundo fictício. É fazer o caminho inverso: trazer o mundo fictício para dentro da realidade das pessoas. Formas animadas é o nome técnico do teatro de bonecos, de objetos e de sombras. E é a única linguagem cênica em que essa inversão é literal. Porque o boneco está na sala. Ele não é imagem de um boneco. É um objeto físico, com peso, feito de pano ou madeira, que ocupa espaço no mesmo…
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O diagnóstico de 2001
Escrevi, num trabalho de licenciatura em Teatro, que os jogos entraram em decadência por causa da urbanização. Que os espaços foram se limitando, que ficaram escassos, e que a rigidez urbana torna escassa a criatividade. A fonte era um texto de 2001. E eu reproduzi aquele diagnóstico em 2022 sem reparar que ele tinha vinte e um anos e que, no meio do caminho, aconteceu outra coisa. O argumento do espaço está certo e continua valendo. A criança que tinha rua não tem mais. O quintal virou vaga de garagem. A quadra virou condomínio. Onde eu enterrei uma formiga numa caixa de fósforos hoje provavelmente há concreto. Mas isso explica…
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Três refletores
No projeto de iluminação que entreguei, escrevi uma frase que serve para quase tudo: É necessário estabelecer uma diferença entre o que é proposto como ideal e o que é possível. Nem sempre o ideal para iluminação será possível para realização. O ideal, ali, seriam projetores elipsoidais, que produzem foco definido e recorte limpo. O possível eram três refletores improvisados de cem watts, extensões elétricas puxadas até onde desse, e uma base montada para que alguém pudesse acender e apagar na hora certa. E foi com isso que projetei a cena. O que me interessa, relendo, não é a precariedade. É o que eu fiz com ela. Não escrevi um…



























