Por que ninguém lavou as mãos
Hempel abre o capítulo sobre investigação científica com Ignaz Semmelweis, e usa o caso para mostrar como se formula e se testa uma hipótese.
Resumi o capítulo para uma disciplina e mencionei a história sem contá-la. Vale contar.
Viena, década de 1840. O hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro.
As mulheres sabiam disso. Imploravam para ser levadas à segunda ala, e algumas preferiam dar à luz na rua a entrar na primeira.
Semmelweis foi eliminando hipóteses, uma por uma. Superlotação. Clima. A posição em que as mulheres pariam. Até o padre que atravessava a ala tocando um sino a caminho dos moribundos, que ele pediu que mudasse de rota.
Nada.
A resposta veio de uma morte. Um colega dele se cortou com o bisturi de um estudante durante uma autópsia, adoeceu e morreu com sintomas parecidos com os das mulheres.
Semmelweis concluiu que os médicos carregavam alguma coisa das salas de autópsia para as salas de parto, nas próprias mãos, e mandou lavá-las com solução de cal clorada.
A mortalidade despencou.
E ele foi rejeitado.
Não por falta de evidência. A evidência era imediata, verificável e brutalmente clara. Foi rejeitado porque a hipótese dizia uma coisa que os médicos não podiam aceitar: que eles vinham matando as pacientes com as próprias mãos.
Semmelweis perdeu o posto, foi tratado como incômodo, ficou cada vez mais amargo e morreu num asilo, em 1865, de uma infecção. Do mesmo tipo que passou a vida combatendo.
Só bem depois a teoria dos germes deu razão a ele.
O que essa história ensina não está no capítulo de método.
Ensina que a resistência a uma hipótese é proporcional ao que ela custa a quem precisa aceitá-la.
Se a explicação da febre fosse o clima, os médicos teriam adotado no dia seguinte. Não custava nada. Como a explicação eram as mãos deles, foram vinte anos e um homem destruído.
E eu tenho um caso pequeno e meu.
Observei, numa escola pública, que os alunos não sustentavam dez minutos de atenção. Escrevi que era uma característica comportamental a ser trabalhada.
Havia outra hipótese disponível, e ela estava à vista: que aquelas crianças eram o resultado previsto de sistemas construídos para capturar atenção, e que a escola pedia delas uma coisa que já não era possível.
Eu não a considerei.
Não por falta de dado. Por causa do custo. A primeira hipótese localiza o problema nos alunos e mantém tudo o mais intacto, inclusive a escola, o currículo e o observador. A segunda implica o sistema, e o observador está dentro dele.
Não estou me comparando a Semmelweis. A comparação é constrangedora e ele merece melhor.
Estou dizendo que o mecanismo que fez Viena não lavar as mãos por vinte anos é o mesmo que me fez escrever aquela frase, e é o mesmo que faz uma instituição inteira arquivar um relatório em que alguém disse a verdade.
E que existe uma pergunta simples para uso diário, quando duas explicações estão sobre a mesa.
Qual delas eu preferiria que fosse verdadeira?
Essa é a que precisa ser testada primeiro.


