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Roberto e Clarisse
Terminei o trabalho de conclusão da licenciatura em Teatro. Quase cem páginas sobre o corpo silenciado e o corpo percebido, com dez estudantes, um semestre de encontros e uma peça apresentada. Ao longo do trabalho inteiro, cinco estudantes falam. Chamei-os de Ana, Lucas, Júlia, Joana e Luiza, nomes fictícios, como declarei numa nota. E no penúltimo parágrafo aparecem mais dois. Roberto, dizendo que nunca tinha prestado atenção no que o outro sentia enquanto atuava. Clarisse, dizendo que o corpo começou a falar sozinho. Roberto e Clarisse não existem em nenhum outro lugar do trabalho. Não estão na metodologia, não estão na análise, não estão na tabela de categorias, não estão…
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Ouvir o próprio pé
Num exercício de percepção, pedi que os estudantes caminhassem de olhos fechados pela sala. Depois, um deles contou o que tinha acontecido. Disse que ouviu o próprio pé. Foram três palavras, ditas sem nenhuma solenidade, e é a melhor coisa que apareceu em seis meses de trabalho. Aquele menino tem dezesseis anos, faz curso técnico integrado ao ensino médio, entra na escola às sete da manhã e sai às cinco e meia da tarde. Passa dez horas por dia num prédio com muro alto, câmera, portão de ferro e horário rígido, aprendendo coisas que servem para operar sistemas. E numa tarde de sexta-feira, andando devagar de olhos fechados numa sala…
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Dois minutos de Romeu e Julieta
Em 2024 eu quis levar teatro para dentro do instituto onde trabalho. O plano era um projeto de extensão com uma turma do curso técnico em Administração integrado ao ensino médio. Para isso existe um caminho: preencher o formulário de cadastro da ação, obter a anuência da chefia imediata, abrir processo administrativo, encaminhar ao gestor de extensão do campus, aguardar o parecer, enviar a documentação à coordenadoria de ações de extensão, aguardar de novo, e então executar. Descrevi esse percurso inteiro no relatório, com nome de setor e sigla, porque foi o que me impediu. E aí veio a greve. Noventa dias, entre março e junho, servidores federais da educação…
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O cientista e a cobaia
Há uma máxima que circula nas rodas de conversa e de negócios: não aceite conselhos de pessoas falidas. Para compreender a profundidade dessa advertência, é preciso ir além do clichê e desmontar a própria linguagem do enunciado, começando pela palavra mais incisiva: o não. Neste contexto, o não é uma barreira. Quando aceitamos algo, seja um presente, uma ideia ou uma direção, fazemos um movimento de abrir os braços. E ao fazê-lo abandonamos a vigilância ativa e entramos em uma zona de recepção. Portanto, não aceitar é recusar a permeabilidade, é negar-se a ser recipiente vazio para as ideias alheias. Aplicando essa lógica à figura da pessoa falida, e entendendo…
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A luta entre a voz e o corpo
Num trabalho de iluminação cênica, precisei projetar uma cena. Descrevi três momentos, cada um com um tipo de luz, e cada um com um estado do ator. Reli três anos depois e descobri que tinha escrito a minha própria biografia sem perceber. O primeiro momento. A cena se inicia com o ator de cabeça baixa, agachado, a se levantar lentamente, olhando fixamente para um ponto na plateia. Luz frontal, até que ele fique completamente ereto. Cabeça baixa. Agachado. Escrevi, sobre mim mesmo, num relato de sonho: entrei de cabeça baixa, os olhos rastreando o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos, porque era vício antigo caminhar encolhido,…
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A porta do recomeço
Neste domingo, enquanto o eco da Escola Dominical ainda preenchia a igreja, o passado cruzou a porta. Reconheci-o de imediato. Um cumprimento rápido, um convite e, logo em seguida, o acolhimento ao redor do café no refeitório. Era um rapaz que congregara conosco anos atrás. Naquela época, havia aceitado a fé sob o nosso teto e logo começara a pregar. Mas, como uma chuva temporã que umedece a terra e logo evapora, o ímpeto passou, e ele se deixou levar pela correnteza dos dias. Tentamos resgatá-lo. Batemos em portas, buscamos pela família, e o esforço esbarrou no silêncio. Ele deixou a cidade, e as notícias que o vento trazia confirmavam…
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Ele foi legião
Ele não alimentava sonhos fáceis de travesseiro, mas daqueles que exigem vigília crônica: desejos que esticam o corpo para muito além das fronteiras do presente. Entre os seis e os nove anos de idade, ele foi legião. Viu-se executivo, o primeiro e mais fulminante clarão, pastor adornado por dons, bombeiro, militar de todas as fardas, administrador, político, médico e juiz, gari, cantor, estrangeiro na Europa e filósofo. Tantas vidas desfilaram por dentro do seu peito, e diante do espelho inflexível do tempo ele não pôde ser todas elas. Ao cruzar o marco dos quarenta anos, foi assaltado pela vertigem de que a vida correu sem jamais autorizar um pouso. Carrega…
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Personagens de ventríloquo
A manipulação raramente se anuncia pelo próprio nome. Ela não veste a farda do tirano: aproxima-se travestida de conselho bem-intencionado, oferecendo a doce e venenosa promessa de aprovação. No calor desses instantes, o alvo dificilmente percebe o ardil, porque são pequenas e sucessivas concessões, microajustes quase imperceptíveis que, milímetro a milímetro, deslocam o sujeito para fora de si mesmo. As sugestões chegam com a naturalidade ensaiada de quem oferece socorro. Você precisa ser mais descolado. Essa roupa é brega, vista-se melhor. Esse cabelo não está legal, faça alguma coisa. Seduzido pela promessa implícita de aceitação, o indivíduo começa a negociar lotes da própria essência. Troca-se o guarda-roupa, ajusta-se a tesoura…
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O padeiro demitido
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos o Natal em frente às casas de Dona Rosa, em memória, e do Natalino. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…
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A pasta do meu pai
Eu busco. E, quando olho para trás, percebo que essa fome já me habitava desde a infância. Sentado no quintal de casa, no bairro Grande Vitória, eu brincava sobre o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, suor após suor. Eles transformaram o presente do meu bisavô, um terreno que outrora fora apenas manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro moldou-se em quintal, e o quintal tornou-se o meu mundo. Foi ali, sobre aquele aterro recém-nascido, que eu comecei a buscar. Procurava algo que a minha idade não sabia nomear. A palavra executivo, não sei de qual rádio, conversa ou intuição ela…



























