Analisar o poder de dentro dele
Propus, num projeto de pesquisa, analisar como as decisões são tomadas no instituto federal onde trabalho, e como o poder é distribuído entre os agentes da instituição.
É um bom objeto. Poucas coisas importam mais numa organização pública do que saber quem decide de fato, e quase ninguém pesquisa isso por dentro.
Reli o documento e ele não analisa poder nenhum.
O que ele faz é elogiar.
A instituição é descrita como renomada, que aparece três vezes. O plano de desenvolvimento institucional é apresentado como instrumento que garante que o poder seja exercido de acordo com as necessidades e objetivos da instituição. As políticas educacionais promovem educação inclusiva, igualdade de oportunidades e busca constante pela excelência acadêmica. E o ambiente é acolhedor e propício ao aprendizado, onde os indivíduos podem se desenvolver plenamente como profissionais e como seres humanos.
Nada disso é falso. É o que está escrito nos documentos oficiais, e boa parte é verdade na prática.
Só que não é análise de poder. É a descrição que a instituição faz de si mesma, repetida por alguém de dentro.
E o mais interessante é que essa falha é ela mesma o resultado da pesquisa que eu não fiz.
E quando sentei para analisar criticamente a distribuição de poder daquele lugar, o que saiu foi material de divulgação.
Não houve censura. Ninguém leu o rascunho, ninguém me disse o que escrever, ninguém ameaçou nada.
Foi anterior a isso. A frase crítica não chegou a se formar.
É esse o mecanismo que interessa, e é justamente o que Foucault descreve quando fala de como o poder funciona sem precisar proibir. Ele não impede que você diga. Faz com que a formulação não ocorra.
E o meu documento é uma amostra, produzida sem querer, do fenômeno que ele pretendia estudar.
Já escrevi sobre um caso parecido. Num diário de campo, registrei que um professor me abordou com hostilidade num corredor de escola, e na linha seguinte escrevi que o ambiente era, em termos gerais, cordial e educado.
Relatei uma agressão e imediatamente defendi quem me agrediu.
É o mesmo movimento, numa escala maior.
Isso não significa que não se possa pesquisar a própria instituição. Significa que é preciso saber o que está em jogo antes de começar.
Declarar a posição no primeiro parágrafo. Submeter a assimetria ao comitê de ética. Entrevistar quem está fora da minha cadeia de decisão. E, sobretudo, mostrar o rascunho para alguém de fora, para que possa apontar onde a crítica sumiu.
Porque quem está dentro não enxerga o próprio silêncio.
Ele não parece silêncio. Parece equilíbrio.


