Pólis & Gestão

O documento que ninguém escreveu

Duas observações do meu relatório de estágio, feitas com quinze dias de diferença, dizem a mesma coisa.

A primeira: o projeto de desenvolvimento institucional da escola é fechado e exclui os agentes da escola de participar diretamente da sua construção.

A segunda: o professor não segue o projeto de desenvolvimento institucional, e defende autonomia para escolher os conteúdos que ministra.

Ninguém precisa de mestrado em gestão pública para ligar as duas frases. Mas eu tenho um, e foi ele que me fez escrever as duas.

Um documento de planejamento redigido sem as pessoas que vão executá-lo não é ignorado por rebeldia. É ignorado porque não foi feito para ser executado. Foi feito para existir, para ser arquivado, para ser apresentado quando alguém pedir, para constar.

E aí acontece o previsível: quem está na sala de aula às sete da manhã opera com outra coisa, e a outra coisa é a própria experiência.

Não é anarquia. É o único sistema disponível.

E esse padrão se repetia em outras escalas naquela escola.

Anotei que o diretor era pouco visto, e que havia um afastamento entre a direção e a parte pedagógica. Anotei que não existia associação de pais, nem formal nem informal, e que as manifestações das famílias eram individuais e não coletivas. Anotei que não havia parceria com nenhuma outra instituição.

E anotei a mais grave: a escola está na comunidade e não participa dela. Não leva a escola até a comunidade nem traz a comunidade para dentro. Cumpre o dever legal e não produz movimento de interação.

Três desconexões encaixadas uma dentro da outra. A direção afastada da pedagogia. A pedagogia afastada das famílias. A escola afastada do bairro.

E em cada nível, o mesmo mecanismo: existe um documento que descreve como deveria funcionar, e ele foi escrito por quem não está lá.

Isso não é um problema daquela escola. É o desenho padrão da administração pública brasileira, e eu o reconheci de imediato porque trabalho dentro dele há quase vinte anos.

A forma cumpre-se. A intenção evapora.

Foi assim que escrevi em 2013, num texto sobre modelos de gestão, quase dez anos antes de entrar naquela escola: o perigo é que a forma imponha soberania sobre a intenção, e que a rigidez do processo acabe engessando o objetivo da organização.

Eu já sabia a teoria. O que faltava era ver a coisa acontecendo com nome, endereço e horário.

Vi numa escola de tempo integral em São Pedro, num prédio adaptado de faculdade privada, com vista para a baía de Vitória.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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