Vinte dias
Era o ano de 2001, e meu pai era responsável por um ponto de pregação em Paul, Vila Velha. Um lugar simples, escondido nos labirintos da periferia. Para chegar àquela casa, passávamos por caminhos que o asfalto jamais tocara. Depois do viaduto principal, virávamos à direita, atravessávamos por baixo de um viaduto mais estreito e seguíamos adiante, em direção a um morro. O carro ficava para trás, pois dali em diante o trajeto pertencia apenas aos pés: uma trilha estreita, margeada pela mata, onde apenas uma pessoa podia passar por vez. Esse caminho era o corredor que nos levava àquele terraço.
Eu sempre levava meu violão Giannini série estudante, adquirido com sacrifício por minha mãe. Foi comprado no carnê, na antiga loja Strauch, no centro de Vitória, uma loja que já não existe mais, consumida pelas chamas de um incêndio.
Subíamos aquele morro semanalmente, à noite, para os cultos. Também realizávamos a Escola Dominical no mesmo lugar, naquele terraço humilde. Foi ali que, pela primeira vez, ouvi e li algo sobre Santo Agostinho, em uma lição bíblica que provavelmente fora escrita pelo pastor Claudionor de Andrade. Eu estava no segundo ano do ensino médio, na Escola de Primeiro e Segundo Graus Professora Assissolina Assis Andrade, em Aribiri.
Numa dessas noites, ao atravessarmos a parte urbana e adentrarmos a trilha estreita, a escuridão se fazia senhora do percurso. O chão parecia um vazio sem contornos, e meus passos, guiados mais pela memória do trajeto do que pela visão, avançavam hesitantes. Senti uma pancada abrupta e inesperada: o chão desapareceu sob meus pés, e caí dentro de um buraco. Não o vi, mas ele estava lá, escavado para a construção de uma sapata que sustentaria um muro. A dor veio rápida, irradiando do tornozelo. Levantei-me como pude, mancando, e continuei o caminho. A missão era maior que a dor. Fomos ao culto, e mesmo mancando, voltei para casa, carregando o violão, um tornozelo inchado e a necessidade de repouso.
Chegando em casa, minha mãe, sempre atenta e cuidadosa, me levou ao Hospital São Lucas. O diagnóstico era evidente: o tornozelo precisava ser engessado. O gesso subiu até o joelho. Com um atestado de 20 dias, fui forçado a parar.
Passei aqueles dias na varanda de casa, com o calor escaldante como companhia, deitado no chão, levantando os livros como quem eleva mundos. Li Cinco Minutos, A Viuvinha, Dom Casmurro e O Cortiço.


