-
Deuses efêmeros de bairro
O calendário marcava um dia de junho na década de 90, provavelmente um sábado, quando a luz do fim de tarde já começava a fraquejar. O cenário era a rua da casa da minha avó, que, na geografia dos meus afetos daquela época, eu reconhecia apenas como o domínio da minha tia Preta. Bem ali, rasgando o meio da rua e desafiando a pacatez do bairro, ergueram um palco improvisado. Dois homens faziam a passagem de som. Para um menino que nunca havia estado diante de uma estrutura daquelas, não se tratava de um punhado de madeira e cabos: era um altar profano que parecia ter caminhado até mim. Faltavam…
-
Caixas de ressonância
Existe uma melodia própria para cada tempo, uma nota exata para cada instante. No coração, abrigamos fragmentos de memória que não se dissipam com a ventania dos anos, mas permanecem sólidos e vivos, ressoando no compasso do que vivemos. Cada canção que nos atravessa é uma tentativa da alma de tocar a essência do próprio sentimento. E quando finalmente nos expressamos, percebemos quem realmente fala. Não é a boca. A boca apenas empresta a sua estrutura física para que o coração transforme o que sentimos em palavras. A música tem o poder implacável de denunciar o que somos por dentro. Quando revelo o meu coração, são as melodias que habitam…
-
O toca-discos
Na sala de minha casa, no segundo andar, no bairro Grande Vitória, o relógio não era um adversário. O tempo não tinha pressa, e a ansiedade, essa palavra tão comum agora, não existia. O toca-discos era um dos objetos mais valiosos da casa. Lá estavam os LPs evangélicos, discos que não sei se papai e mamãe compraram ou ganharam, mas sei que estavam ali, preenchendo aquele ambiente com hinos que ecoam até hoje em mim. O som estava ligado, e na simplicidade daquele momento, eu estava aprendendo a cantar. Cantava porque cantar era natural, tão natural quanto brincar ou sonhar. A voz era o único veículo necessário para dar vida…
-
Vinte dias
Era o ano de 2001, e meu pai era responsável por um ponto de pregação em Paul, Vila Velha. Um lugar simples, escondido nos labirintos da periferia. Para chegar àquela casa, passávamos por caminhos que o asfalto jamais tocara. Depois do viaduto principal, virávamos à direita, atravessávamos por baixo de um viaduto mais estreito e seguíamos adiante, em direção a um morro. O carro ficava para trás, pois dali em diante o trajeto pertencia apenas aos pés: uma trilha estreita, margeada pela mata, onde apenas uma pessoa podia passar por vez. Esse caminho era o corredor que nos levava àquele terraço. Eu sempre levava meu violão Giannini série estudante, adquirido…
-
Para Não Esquecer
Há histórias que se costuram com detalhes tão singelos quanto inesquecíveis: um teclado, uma avenida, uma porta que se abria para a ação, bancos de madeira simples, uma menina e sua irmã que amavam as canções da Cassiane. Entre tudo isso, havia o “Hino do Vitória”, que se tornava o centro das celebrações. Naquele cenário, havia também um diácono que tinha um jeito peculiar, quase como um padre, com uma serenidade que parecia marcar sua presença. Ele era uma dessas figuras que, mesmo sem grandes palavras, deixava uma impressão duradoura. E havia o presbítero Paulo, um homem cuja presença era um alicerce na obra de Deus, companheiro fiel de meu…














