Eu acreditei
Estive em uma relação que eu pensava ser amizade.
Ele era sozinho. Tinha dificuldade de fazer amigos por perto, e eu não fui escolha, fui o que tinha. Mas eu pensava que era amizade.
Era uma amizade nutrida pela economia. Ele pagava com um dinheiro que não era dele, e eu não conseguia enxergar que ele não tinha, que a fonte era o pai. Ele não sabia o valor do que tinha, e eu não sabia da fonte.
Por volta de 2006 a 2008, na época do Orkut, estreitamos vínculos. Por meio da pregação da palavra eu tinha acesso a igrejas, a bairros e a pessoas com quem, de outro modo, eu não teria nenhum relacionamento. Conseguia chegar e conquistar espaço.
Ele viu isso. Viu algumas meninas e me instrumentalizou. Eu me tornei ponte.
Havia uma que tinha me chamado a atenção, filha do pastor. Com o meu jeito discreto, eu jamais forçaria uma conversa. Mas ele tinha um plano, e o plano era o contato pessoal.
A igreja ficava longe, na região metropolitana, de difícil acesso, um ônibus só, com horário reduzido. Eu já havia pregado ali. Agora ia sem ser convidado, não para pregar, mas para ajudar um colega que achou uma moça interessante.
Antes, ele disse que eu deveria ser mais descolado. Eu acreditei. Disse que eu deveria dar um trato no cabelo. Eu acreditei. Disse que minha roupa não era legal. Eu acreditei. Disse que o meu modo de falar não era o ideal, era de velho. Eu acreditei.
Acreditei porque ele era meu amigo. Pensava que estava preocupado comigo. Estava preocupado em ter sucesso na investida dele.
Relaxei o cabelo. Achava que estava abafando, porque ele disse que eu estava.
Pegamos o ônibus, cheio. Naquele dia o pregador não levou bíblia, porque ele disse que não precisava. Ajudou a ter mais firmeza para segurar nas ferragens do Transcol rumo ao terminal. Pegamos outro ônibus e saltamos no campo mais verde de Cariacica.
Assisti ao culto me sentindo deslocado. Sabia que meu lugar, naquele dia, não era ali. Mas me esforçava para pensar que estava pensando errado. Dizia comigo: ele está certo, tenho que ser mais descolado.
O pregador que já havia ocupado o púlpito estava agora na nave. Não ouviu a mensagem. Não ouviu os louvores. O interesse estava depois do culto, depois da bênção apostólica.
Acabou o culto. Fomos para fora. A mãe dela me olhou e riu. Só riu. Um sorriso de quem desacreditou, um sorriso torto. Vergonha. Aparentemente vergonha de mim, não querendo aproximação.
Ele nos chamou à cantina, do lado de fora da igreja. Chamou ela e a amiga. Pagou. Tinha o poder monetário que eu não tinha, e nunca havia me dado nada antes. Sabia que eu não tinha de onde tirar. Esse poder ele não transferiu para haver igualdade. Pagou um lanche para as duas.
Eu ali, no canto, querendo que tudo terminasse. Preocupado com a minha reputação. Ela já tinha sido perdida.
Nunca mais fui convidado para pregar naquela igreja.
A coisa estranha que rendeu um namoro para ele tirou a dignidade do pregador.


