• Filosofia & Teologia

    Critérios de papel glassé

    É notável, e por vezes desconcertante, a velocidade com que nos lançamos em relacionamentos baseados em critérios de papel glassé: frágeis, transitórios e visualmente sedutores. Muitos parecem ter perdido a capacidade de definir o que realmente importa e, órfãos de critérios sólidos, acabam aceitando qualquer presença que preencha o vazio imediato. Nesta cultura de aparências, onde o invólucro se tornou o centro das atenções, a beleza física, esse critério tão efêmero quanto cruel, tornou-se o único ponto de atração. Relacionamentos baseados apenas no desejo visual ou na conveniência social não possuem raízes. São plantas sem solo, destinadas a secar ao primeiro sol da realidade. Amar exige a maturidade de saber…

  • Artes & Narrativas

    Parecia Luma

    Olhos fechados, mergulho na sombra do sonho. Uma névoa branca envolve o verde de um jardim escondido. Ela surge, descalça, num vestido branco. Cabelos longos e encaracolados caem sobre os ombros. Ela dança. Seus pés tocam a grama, desenhando formas invisíveis. Parecia Luma. No solo da Áustria, envolta pela neblina e pela paisagem dos Alpes.

  • Filosofia & Teologia

    O presente e quem presenteia

    A imagem de algo grandioso sempre desperta em nós um misto de assombro e reverência. Quando Deus nos chama para realizar uma grande obra, nossa imaginação tenta construir uma visão imensa, algo que transcenda nossos próprios limites. E, no entanto, ao tentar vislumbrar o que é infinito, permanecemos confinados nos contornos de nosso próprio imaginário. Isaías, em seu tempo, foi convocado a cumprir uma obra monumental. Sua missão era despertar Judá, arrancá-la da complacência e trazer uma mensagem de advertência que a impelisse ao arrependimento. Em meio a uma nação voltada aos próprios desejos, seria mais fácil proferir palavras que confirmassem suas escolhas, que alimentassem sua marcha já em curso.…

  • Filosofia & Teologia

    A prisão que você aceitou

      As estações mudam, e com elas nossos olhos podem aprender a ver o mundo de novas maneiras. A cada estação, renascemos. E queria que você soubesse que também desejo isso para você: a transformação. Queria que, a cada dia, você se descobrisse novo, que abraçasse a impermanência como quem desvela o mistério de existir. Mas você se torna pedra, imóvel e resistente, celebra a inércia como se ela fosse virtude, sem perceber o quanto ela o afasta da vida. Eu queria ver em seu olhar o brilho do inesperado, a coragem de se surpreender consigo mesmo. Mas você não se permite esse jogo, não conhece a arte da surpresa.…

  • Filosofia & Teologia

    Cinco minutos

    Ainda bem que o tempo passa. Já imaginou o desespero se tivéssemos de suportar uma segunda-feira eterna? Há um alívio imenso no movimento dos dias. A beleza de cada instante só se revela porque ele não permanece, porque sua natureza é fugaz. Conta-se que havia uma menina que se encantava todas as manhãs com a visita de um pássaro. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto breve, não durava mais do que cinco minutos, mas esses cinco minutos eram suficientes para aquecer o dia inteiro. Certo dia, o desejo de prolongar aquela beleza tomou conta dela. Resolveu capturá-lo, colocou-o em uma gaiola para que pudesse ouvir…

  • Filosofia & Teologia

    O corpo não saiu do lugar

    Escrevi há pouco quatro parágrafos sobre a atração. Saíram fáceis. Falavam de uma presença que atravessa o tempo, de uma sedução que não é da aparência, de uma essência que dispensa explicação. Reli e percebi que em nenhum momento eu havia dito o que estava descrevendo. Tinha enobrecido antes de nomear. Nas mesmas semanas, reencontrei três textos antigos. Num deles eu tinha treze anos, e uma menina me pediu uma palavra gentil diante de um espelho. Respondi que era muito controlado, que nada me tirava do controle. Noutro, aos dezesseis, uma moça se inclinou sobre uma mesa a dois passos de mim e ficou ali. Pensei que ela me odiava.…

  • Artes & Narrativas

    O Chocolate Curvado

    Eu tinha entre dezesseis e dezessete anos e era professor de Escola Dominical para pessoas da minha própria idade. Era no bairro Primeiro de Maio, em Vila Velha, por volta de 2002. Aos domingos subia e descia as escadas do segundo piso com a regularidade das coisas que viram ritual sem que ninguém decrete. A sala de aula ficava em cima. Havia o que aprender, e havia pressa em aprender, porque logo seria preciso ensinar. Depois da Escola Dominical, iríamos desenvolver um trabalho. A maioria tinha faltado. Menos ela. O olhar dela já era afetuoso havia algum tempo. Eu via e não processava. Ou processava e escolhia não saber. Naquele…

  • Filosofia & Teologia

    Sem que eu conhecesse suas vozes

    Quando vou à igreja, não só à minha, mas em especial quando visito outras, levo comigo uma esperança que parece pequena, mas pulsa forte dentro de mim. Uma esperança de que, ali, entre as cadeiras e os cânticos, entre os olhos fechados da oração e os olhos abertos da fé, esteja ela… minha futura esposa. Procurava santidade. Pureza no olhar. Amor pela Palavra. Aquela que fosse, ao mesmo tempo, sensível e firme, com vontade de formar uma família de verdade, no temor do Senhor. Mas, mesmo com tudo isso queimando em mim, ficava parado. Esperava. Pensava: “Se for de Deus, ninguém vai impedir.” E assim me escondia atrás dessa verdade,…

  • Artes & Narrativas

    Eu sou um executivo

    Lembro-me vividamente de uma tarde no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Um quintal que mais parecia uma pequena chácara, com espaços amplos. Ali havia paredes de alvenaria que seriam, no futuro, parte de uma piscina que nunca veio a existir. Naquele dia, eu segurava uma pasta executiva que pertencera ao meu pai. Uma pasta robusta, de couro preto, que ele usava para carregar papéis importantes para a igreja. Por algum motivo, a pasta havia sido descartada, e agora estava em minhas mãos. Na companhia de alguns amigos, cujos rostos e nomes o tempo apagou, olhei para aquela pasta com um misto de curiosidade e fascínio. Segurei a pasta…

  • Filosofia & Teologia

    A sombra que caminha à esquerda

    A projeção, essa artimanha da mente, constrói ilusões que se estendem como sombras do presente, tentando alcançar um futuro que ainda não existe. É como trazer o “lá” para o “aqui”, antes mesmo de ele ter forma. Mas quando o “lá” se torna real e habitamos o espaço do que projetamos, a decepção surge. Quantas ilusões plantamos ao pensar que podemos ser especiais para alguém, ocupando um trono que só existe enquanto dura o delírio de uma autoestima desenfreada. Acreditamos que o “especial” será eterno, mas ele é frágil, condicionado à duração do encantamento. A ilusão maior está na tentativa de decifrar o outro como se fosse uma equação. Às…